Opinião

O fim das Bets

“Eu nunca imaginei que viveria para ver pessoas que se dizem defensoras dos valores cristãos relativizarem os danos provocados pelo jogo quando a questão passa a estar associada ao político de sua preferência.
As Bets não surgiram ontem. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas no Brasil em 2018, durante o governo Temer. Em 2023, no governo Lula, o Congresso aprovou uma nova legislação que ampliou o mercado para os jogos on-line e estabeleceu sua regulamentação.
Mas, independentemente de quem assinou, de quem regulamentou ou de quem hoje defende determinada posição, existe uma pergunta que deveria estar acima da disputa política:


O que acontece quando o jogo deixa de ser entretenimento e passa a destruir vidas?
O próprio Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um problema de saúde pública, associado a prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.


Há famílias endividadas. Pessoas que perdem o controle e comprometem a renda que deveria sustentar seus filhos. Pessoas que passam a enxergar a dívida como uma prisão. E há casos de sofrimento psíquico extremo e de pessoas que chegam a tirar a própria vida diante da sensação de não encontrar saída.


Enquanto isso, existe uma indústria lucrativa em torno desse comportamento: plataformas, publicidade, patrocínios e influenciadores que recebem para transformar a aposta em promessa de dinheiro fácil.
E é aqui que eu acho que precisamos parar e pensar.
Não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. De Lula ou Bolsonaro. De católico ou evangélico. De conservador ou progressista. Deveria ser uma questão de responsabilidade, saúde pública e coerência com os valores que dizemos defender.


É muito fácil defender princípios quando eles não confrontam nossos interesses políticos. Difícil é manter os mesmos princípios quando a realidade nos obriga a reconhecer que uma prática pode ser legal, regulamentada e, ainda assim, produzir consequências sociais profundamente graves.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “quem eu apoio?”, mas:
“Que tipo de sociedade estamos ajudando a construir quando o lucro de alguns depende da vulnerabilidade de outros?”

Autora: Roberta Gonçalves Resende

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