Foi esse amor que me libertou
Quando eu tinha cerca de oito anos, meu pai, fotógrafo, que vivia me fotografando, pediu que eu posasse para testar uma máquina nova. Levantei um dos braços acima da cabeça, como um dançarino de tarantela.
Naquele instante, uma tia interrompeu a cena e disse: “Baixa esse braço. Essa é pose de veado.”
Talvez ela nunca tenha imaginado o peso daquelas palavras. Mas elas atravessaram a vida daquele menino.
Durante mais de 60 anos, vivi baixando os braços. Fechando as pernas. Aprendendo a cruzá-las “como homem”. Nunca carregando um caderno junto ao peito, mas ao lado do corpo. Sempre provando alguma coisa. Sempre tentando convencer os outros da minha masculinidade.
Hoje percebo que aquela frase não moldou quem eu era. Moldou apenas o medo com que vivi durante tantos anos.

Por isso, neste 28 de junho, Dia do Orgulho LGBTQIA+, acredito que devemos celebrar não apenas o orgulho, mas também as nossas dores. As rejeições, a falta de reconhecimento, os preconceitos que carregamos. Porque são justamente essas cicatrizes que, quando deixam de ser escondidas, se transformam em liberdade.
Daqui a poucos dias completarei 27 anos de casamento com o homem que me deu aquilo que nenhuma prova de masculinidade jamais conseguiu oferecer: amor, respeito, acolhimento e liberdade para ser exatamente quem eu sou.
Foi esse amor que me libertou.
E é por isso que hoje posso dizer, sem baixar os braços, sem esconder quem sou e sem pedir licença:
Tenho orgulho da minha vida.
Fonte: Facebook – Tadeu Aguiar

