História que o povo conta

Cemitério de Sorocaba – SP

Existe um cemitério em Sorocaba, interior de São Paulo, onde uma pequena capela foi erguida sobre um túmulo.
Não é o túmulo de um bispo.
Não é o de um general, nem de um político, nem de um homem rico.
É o túmulo de um ex-escravo analfabeto que passou anos da vida afogado na cachaça.
Mas que um dia ouviu uma voz. E nunca mais foi o mesmo.
Seu nome era João de Camargo, nasceu em 16 de maio de 1858, numa fazenda em Sarapuí, interior de São Paulo.
Filho da escrava Francisca — que também tinha dons mediúnicos — João veio ao mundo sem liberdade, sem sobrenome próprio, sem futuro prometido.
O sobrenome “Camargo”? Era o nome dos seus donos.

Assim funcionava o Brasil naquela época: até o nome que você carregava pertencia a outro.

Depois da Abolição, João foi para Sorocaba.
Trabalhou como cozinheiro. Como oleiro. Como agricultor. Até como militar.
Mas carregava um peso que nenhum emprego resolvia: O alcoolismo.
Caía bêbado às margens do córrego da Água Vermelha. Dormia na lama. Acordava sem saber quem era.

Os jornais da cidade chegaram a escrever que ele merecia “um bom lugarzinho no manicômio local.”
A elite sorocabana não queria nem ver aquele preto velho bêbado pelas ruas.
Mas numa noite de 1906, algo aconteceu.
João estava caído perto de uma cruz mortuária — a cruz onde havia sido enterrado um garotinho chamado Alfredinho, morto num acidente de cavalo.
E naquela noite, segundo ele mesmo contava, o menino Alfredinho apareceu.
Junto com Nossa Senhora Aparecida. E o espírito de um monsenhor que havia morrido cuidando dos doentes da febre amarela.

E a mensagem era clara:
“Para de beber, João. Há doentes esperando por você.”
Nhô João parou de beber.
Do dia para a noite.
E começou a curar.
Atendia pobres, ricos, brancos, negros, católicos, protestantes — qualquer um que batesse à sua porta.
E nunca cobrou um único centavo de ninguém.

A fama cresceu. O rebanho cresceu.
Em 1907, começou a construir uma capela com dinheiro arrecadado numa festa junina.
Em 1913, foi preso — acusado de curandeirismo.
Absolvido.
Preso de novo.
Absolvido de novo.
A cada prisão, mais gente aparecia para defendê-lo.
A perseguição que devia destruí-lo só fazia aumentar sua fama.
Diziam que ele tinha um telefone especial na capela.
Discava 507 e falava direto com São Pedro.
“Alô, São Pedro? Quem fala é João de Camargo. Veja se o Chefe pode me atender agora…”
Era lenda? Era brincadeira?
Talvez. Mas os doentes que saíam curados da sua porta não riam.
João de Camargo morreu em 28 de setembro de 1942. Tinha 84 anos.

Sorocaba parou.
Mais de 6 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre de um homem que nascera sem nome, sem liberdade, sem nada.
Hoje, no Cemitério da Saudade de Sorocaba, seu túmulo tem uma miniatura da sua própria capela construída sobre ele.

Flores. Velas. Bilhetinhos com pedidos.
Visitantes de todo o Brasil que chegam, se ajoelham, e sussurram no ouvido de um ex-escravo analfabeto os seus pedidos mais íntimos.

Fonte: Facebook – Regiane Lincoln

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