Quando o reality encontra a vida real
Este texto não é de defesa, tampouco de critica ao maior reality show do Brasil. E, antes de tudo, uma reflexão.
Big Brother Brasil, desde sua primeira edição, que confesso acompanhei pouco, sempre despertou sentimentos intensos na audiência. Talvez os mais primitivos deles, amor e ódio. Não há meio-termo. Não se gosta mais ou menos. Para acompanhar, é preciso entrega diária, durante mais de três meses, “estar” entre conversas relevantes e outras absolutamente banais.
Mas o que aconteceu neste domingo, dia 19, rompeu essa lógica.

Furou a bolha do entretenimento, do previsível, do roteiro previamente montado. O que se viu foi algo raro, a vida real invadindo o espetáculo.
A história começa ainda nos primeiros dias do programa, quando Ana Paula revela ter hesitado em entrar na casa por conta do estado de saúde do pai. Era o quinto dia, talvez um pouco mais, talvez menos. Um detalhe que, à época, poderia passar despercebido.
Avançamos no tempo,
Na sexta-feira, dia 17, o pais é impactado pela notícia da morte de Oscar Schmidt, irmão do apresentador Tadeu Schmidt, figura pública, idolo, referência.

Dois dias depois, mais uma perda, morre Girberto, pai de Ana Paula, uma das participantes centrais da edição.

E então chega a noite do domingo.
Ao vivo, diante das câmeras, e em muitos momentos apesar delas, o que se viu não foi um programa. Foi vida. Foi dor. Foi o reality sem espetáculo.
Tadeu seguiu. Suportou o próprio luto, manteve-se firme, respeitou o curso do programa. Profissional. Preparado. Roteiro em mãos.
Até que o luto do outro atravessou o seu.
Diante da dor de Ana Paula, ele não resistiu. E não havia motivo para resistir.
Ali, não existia script. Não havia corte, nem comando, nem protocolo. O apresentador, conhecido pela postura segura, cedeu espaço ao homem. E o homem sentiu.
O que se viu foi o encontro de duas dores profundas. Dois corações atravessados pela perda, expostos em rede nacional, sem filtro, sem ensaio.
Por alguns instantes, o reality deixou de ser show. Deixou de ser narrativa. Tornou-se espelho.
E talvez seja isso que explique sua força, quando menos se espera, o entretenimento revela aquilo que é impossível encenar, a condição humana.
Porque, no fim, não há edição capaz de conter o que é real.
Ubi vita est, mors non est; ubi mors est, vita non est, onde está a vida, a morte não está; onde está a morte, a vida não está.
Fonte:O Anhanguera

