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17 de maio: o dia em que o mundo diz não à LGBTfobia, e o Brasil ainda precisa ouvir

O país que mais mata pessoas trans no mundo celebra o Dia Internacional contra a LGBTfobia com números que deveriam envergonhar a todos

Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. A data foi escolhida para marcar o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia,  mais conhecido como Dia Internacional contra a LGBTfobia.

Trinta e seis anos depois, o mundo ainda precisa de um dia para lembrar que existências humanas não deveriam precisar ser defendidas.

E o Brasil, especificamente, tem muito a responder.

O país que mais mata

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Não é uma acusação. É um dado documentado, repetido ano após ano, por organizações nacionais e internacionais de direitos humanos.

Segundo o relatório da ANTRA — Associação Nacional de Travestis e Transexuais —, o Brasil concentra sozinho mais de 40% de todos os assassinatos de pessoas trans registrados no mundo. A expectativa de vida de uma mulher trans no Brasil é de aproximadamente 35 anos. A média nacional de expectativa de vida é de 76 anos.

Quarenta e um anos de diferença. Uma vida inteira separando quem pode envelhecer de quem raramente chega à meia-idade.

Esses números não acontecem no vácuo. Eles são o resultado de uma cadeia de violências que começa muito antes do assassinato,  na família que expulsa, na escola que humilha, no mercado de trabalho que exclui, no sistema de saúde que constrange, na rua que ameaça.

O que é LGBTfobia — e por que ela mata

LGBTfobia é o conjunto de atitudes, comportamentos, preconceitos e violências direcionados a pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e outras identidades de gênero e orientações sexuais que fogem ao padrão heterossexual e cisgênero considerado “norma” pela sociedade.

Ela se manifesta de formas diferentes. Pode ser a piada no grupo da família. O olhar atravessado na rua. A recusa de um médico em atender adequadamente. A demissão sem justificativa. O filho expulso de casa aos 14 anos. O espancamento na saída de uma festa. O corpo encontrado sem identificação em uma área isolada.

Todas essas formas estão conectadas. A piada normaliza o desrespeito. O desrespeito normaliza a discriminação. A discriminação normaliza a violência. E a violência, no Brasil, frequentemente termina em morte.

Quem mais sofre dentro da comunidade

A LGBTfobia não afeta todos de forma igual. Dentro da própria comunidade LGBTQIA+, há camadas de vulnerabilidade que precisam ser nomeadas.

Mulheres trans e travestis negras são as mais atingidas. Elas concentram a maior parte dos assassinatos registrados no Brasil. Vivem na interseção de três marcadores de exclusão,  ser trans, ser mulher e ser negra,  num país onde cada um desses marcadores, isoladamente, já representa risco.

A maioria das vítimas de transfobia no Brasil tinha entre 18 e 29 anos. Foram mortas jovens, muitas vezes em situação de vulnerabilidade social, sem acesso à educação formal, sem emprego formal, sem família que as acolhesse.

Jovens LGBTs expulsos de casa formam uma parcela significativa da população em situação de rua no Brasil. Sem rede de apoio familiar, sem documento, sem endereço, as possibilidades de acesso a direitos básicos se fecham rapidamente,  e a prostituição surge, muitas vezes, como única alternativa de sobrevivência, o que aumenta ainda mais a exposição à violência.

O Brasil que avança e o Brasil que recua

O Brasil tem uma história contraditória com os direitos da população LGBTQIA+.

Por um lado, o país foi pioneiro em algumas conquistas: o reconhecimento da união homoafetiva pelo STF em 2011, a equiparação ao casamento civil em 2013, a decisão do STF que criminalizou a homofobia e a transfobia em 2019, equiparando-as ao crime de racismo quando não há lei específica. O Sistema Único de Saúde oferece, em teoria, atendimento integral à saúde de pessoas trans, incluindo o processo transexualizador.

Por outro lado, o ambiente político e social dos últimos anos endureceu o cotidiano de muitas pessoas LGBTQIA+ no Brasil. Discursos de ódio ganharam espaço público e legitimidade. Lideranças religiosas e políticas passaram a questionar abertamente conquistas que levaram décadas para ser obtidas. Projetos de lei que ameaçam direitos já garantidos circulam no Congresso com regularidade.

O resultado prático é uma sensação generalizada de insegurança. De que o chão pode ceder. De que direitos conquistados não são definitivos.

A violência que não aparece nas estatísticas

Os assassinatos são a ponta mais visível de um iceberg imenso. Mas a violência cotidiana que não termina em morte raramente é contabilizada.

Quantas pessoas LGBTQIA+ deixam de procurar atendimento médico por medo de serem mal tratadas? Quantas escondem a identidade no trabalho para não serem demitidas? Quantas famílias têm um filho que nunca trouxe o parceiro para jantar porque sabe o que vai acontecer? Quantos adolescentes dormem em abrigos porque a casa onde cresceram não os aceitou?

Essas violências silenciosas produzem adoecimento. Pesquisas mostram que jovens LGBTQIA+ têm taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade e ideação suicida do que jovens heterossexuais e cisgêneros. Não porque sejam inerentemente mais frágeis. Mas porque vivem em ambientes que constantemente sinalizam que sua existência é um problema.

O papel da família — e da escola

A família é o primeiro lugar onde a LGBTfobia é aprendida, ou desaprendida.

Uma criança que cresce ouvindo piadas homofóbicas aprende que determinadas pessoas merecem menos respeito. Uma criança que cresce num ambiente de acolhimento aprende que diversidade é parte da vida humana.

A escola deveria ser o segundo espaço de formação,  mas o bullying LGBTfóbico é uma das formas mais comuns de violência escolar no Brasil. Adolescentes que não se encaixam nos padrões de gênero esperados são alvos frequentes de humilhação, exclusão e agressão.

A ausência de educação sobre diversidade sexual e de gênero nas escolas não protege as crianças. Deixa-as sem ferramentas para entender a si mesmas e sem vocabulário para respeitar os outros.

O que cada pessoa pode fazer

Combater a LGBTfobia não é tarefa apenas de quem é LGBT ou de quem está diretamente afetado pelo tema. É responsabilidade de qualquer pessoa que acredita que vidas humanas têm valor igual.

Algumas atitudes concretas fazem diferença: não rir de piadas LGBTfóbicas e nomear o problema quando ele aparece, mesmo que seja desconfortável. Acolher o familiar, o amigo ou o colega que se abre sobre sua identidade, sem fazer drama, sem transformar em evento, apenas recebendo. Defender o emprego, a permanência e a dignidade de colegas LGBTQIA+ no ambiente de trabalho. Votar em candidatos que defendem direitos humanos. Denunciar violências ao Disque 100 ou à Delegacia de Crimes de Ódio.

E, talvez mais importante: conversar. Com os filhos, com os pais, com os amigos. Normalizar a diversidade antes que o preconceito se instale.

Para quem está lendo isso e precisando de ajuda

Se você é uma pessoa LGBTQIA+ e está em situação de vulnerabilidade, violência ou crise, existem canais de apoio:

Disque 100 — denúncias de violações de direitos humanos, gratuito e disponível 24 horas.

Centro de Referência LGBT — presente em diversas cidades brasileiras, oferece apoio jurídico, psicológico e social.

ANTRA — antra.org.br — suporte e informação para pessoas trans e travestis.

CVV — Centro de Valorização da Vida — ligue 188, disponível 24 horas para apoio emocional.

O 17 de maio que o Brasil precisa

O Dia Internacional contra a LGBTfobia não é uma celebração. É um lembrete. De que existências seguem sendo ameaçadas. De que a distância entre ter direitos no papel e vivê-los na prática ainda é enorme. De que o país que mais mata pessoas trans no mundo não pode se dar ao luxo de ignorar esse debate.

Cada pessoa que morre vítima de LGBTfobia no Brasil tinha um nome. Tinha família. Tinha sonhos que não chegaram a ser vividos. Tinha uma vida que foi interrompida por um ódio que não nasceu do nada — foi cultivado, tolerado e, em alguns casos, aplaudido.

Isso precisa mudar. E a mudança começa com a disposição de olhar para os números, sentir o peso deles e decidir que não é aceitável.

Não é aceitável. E nunca deveria ter sido.

Fonte:Portal Nossa Oeste

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