Educação

Educação: em SP, greve expõe um colapso

Alta rotatividade de professores, fechamento de salas de aula e perda de autonomia caminham junto à implantação de escolas cívico-militares. Precarização revela projeto de desmonte pedagógico de Tarcísio: docentes do estado estão entre os mais mal pagos do país

Nos dias 9 e 10 de abril, os profissionais da Educação do Estado de São Paulo entraram em greve. A paralisação, articulada pela APEOESP, sindicato da categoria, tornou-se medida incontornável diante da política educacional conduzida pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e por seu secretário, Renato Feder. Entre as principais motivações da categoria, estão o reajuste salarial pífio, a alta rotatividade de profissionais, a escassez de concursos públicos, o não cumprimento do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN) e o arquivamento do Projeto de Lei nº 1316/2026 – que propõe medidas assediadoras disfarçadas de Reforma Administrativa da Educação. Além disso, educadores protestam contra o fechamento de salas no período noturno, a plataformização do ensino, a perda de autonomia didático-pedagógica e a implantação das escolas cívico-militares.

As atividades paredistas culminaram em uma massiva assembleia na Avenida Paulista, que reuniu quase 10 mil pessoas e evidenciou a força do movimento.

O cenário que deflagrou a mobilização expôs contradições estruturais. A rede estadual de ensino paulista, responsável por alocar cerca de 3,5 milhões de estudantes e 190 mil profissionais da educação, opera sob um regime de precarização e alta rotatividade, penalizando sobretudo os professores temporários (Categoria O), hoje, quase 50% de docentes que estão em sala de aula.

Fonte: DIEESE, 2026. Docentes temporários na rede de ensino do Estado de São Paulo.

Ao invés de fortalecer a carreira, a gestão Tarcísio-Feder organiza a rede por meio da contratação sistemática de trabalhadores temporários, impondo a precarização nas condições de trabalho como regra. Trata-se de um projeto deliberado de substituição de concurso público pela instabilidade empregatícia, negando-se, inclusive, a convocar os profissionais já aprovados. A título de exemplo, no último certame, com mais de 290 mil inscritos, a Secretaria da Educação (Seduc) chamou parcos 15 mil docentes.

De forma paradoxal, o ente federativo com maior arrecadação do país (mais de 300 bilhões por ano) remunera o seu magistério com valores nominais inferiores ao estipulado pelo Piso Salarial Profissional Nacional. Para mascarar o arrocho salarial e atingir artificialmente o piso, o governo paulista institucionalizou, há décadas, uma política de abonos e bonificações compensatórias. Como facilmente verifica-se na tabela do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), professores dos Anos Iniciais (1º ao 5º ano) e Finais (6º ao 9º ano) recebem abaixo do piso desde 2016 e 2020, respectivamente.

Fonte: DIEESE, 2026. Diferença entre os Salários Base dos PEB I, PEB II e PEFM em relação ao PSPN.

O modelo gerencialista de Tarcísio-Feder revela-se essencialmente excludente, uma vez que tais rubricas baseadas na bonificação não são incorporadas aos vencimentos-base e, por conseguinte, não incidem sobre os cálculos previdenciários, deixando à deriva servidores que dedicaram décadas de suas vidas ao Estado e ao compartilhamento de saberes, conhecimentos e vivências com crianças, adolescentes, jovens e adultos.

A insustentabilidade dessa política é traduzida em dados que colocam a rede estadual paulista no 21º lugar no ranking salarial docente do país. Isso se levarmos em conta o modelo de bonificação. Na ausência do mecanismo de bônus, os professores de São Paulo receberiam 43,2% a menos do que o valor pago no Rio de Janeiro, atual lanterna do ranking nacional.

Para além da corrosão da renda, a greve denunciou projeto sistemático de desmonte pedagógico e autoritário. Tarcísio-Feder promovem a restrição do acesso educacional à classe trabalhadora, o que é evidenciado pelo fechamento arbitrário de salas de aula no período noturno e pelo esvaziamento da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Fonte: DIEESE, 2026. Efeitos no Noturno e Turmas de EJA.

Constata-se uma redução drástica de mais de 50% nas matrículas do período noturno ao longo dos últimos oito anos. Quando questionado, o secretário da Educação tenta eximir o Estado de sua responsabilidade, alegando que as salas são regularmente abertas e divulgadas, mas esbarram em uma suposta falta de demanda ou na evasão. Essa retórica culpabilizadora oculta uma política de exclusão deliberada: ao ignorar a transformação não planejada de escolas regulares em escolas de tempo integral e as exaustivas condições materiais enfrentadas pela juventude periférica, Tarcísio e Feder usurpam, na prática, o direito subjetivo do estudante trabalhador acessar, frequentar e concluir a Educação básica.

No chão da escola, observa-se um processo de alienação do trabalho docente, no qual a imposição de tecnologias educacionais tem reduzido o papel intelectual docente ao de mero monitor de slides e de plataformas digitais, minando a autonomia didático-pedagógica e empobrecendo o processo de ensino e aprendizagem. A plataformização tornou-se processo totalizante, asfixiando quaisquer formas de criação, experimentação e ousadias pedagógicas, metamorfoseando estudantes e professores em códigos de barra, algoritmos kafkianos.

As consequências dessa dupla precarização, laboral e pedagógica, refletem-se na redução aguda dos indicadores de qualidade de ensino. No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – indicador que relaciona o desempenho dos estudantes em avaliações externas de larga escala com dados de fluxo escolar, o Estado de São Paulo sofreu variação negativa expressiva no Ensino Fundamental, despencando no índice nacional. No Ensino Médio, a queda foi ainda mais drástica, saindo das primeiras posições em 2019 para o 9º lugar, como podemos verificar na tabela do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).

Fonte: INEP, 2023.

O Saresp 2025 (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) reafirmou esse déficit de aprendizagem, revelando que mais da metade dos discentes do 9º ano possuem baixa proficiência em Língua Portuguesa. Isso significa que estudantes que concluíram o Ensino Fundamental apresentam incapacidade de interpretar campanhas publicitárias básicas, por exemplo, sobre a importância da vacinação.

Diante de um contexto de barbárie gerencial que violenta diariamente a saúde física e mental dos trabalhadores e compromete o direito de aprendizagem de milhões de estudantes, a atual mobilização não é apenas justificada: é urgente e indispensável. Lutar pela valorização docente é, acima de tudo, lutar por uma educação digna. Faz-se necessário estar atento e forte! E manter a resistência ativa, pois a mobilização continua. Uma nova assembleia da categoria está agendada para o dia 28 de abril.

Fonte:Outras Palavras

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