Educação

A Lógica da Rainha de Copas

Por João de Loyola


Era uma reunião entre decisores da educação, na pauta mais uma plataforma que não atingiu o índice “verde”, mais uma planilha não preenchida na data, mais um detalhe que pôs para baixo os esforços em atingir as metas para a semana. “Os índices estão abaixo dos 45% vocês sabem que poderão ser responsabilizados” falou o cabeça a reunião em tom de preocupação, afinal, ele era responsável por aquele grupo de gestores e a resolução 4 vale para ele também.


O Mês de Maio, um antes de Junho, pertíssimo do período de férias escolares de meio de ano, tem-se essa discussão pela responsabilização do não cumprimento de metas e parâmetros estatísticos. Me lembra quando tomei contato com os vendedores de Tele sena, sim, aquele título de capitalização que prometia prêmios maravilhosos e grana à beça, coisa do tipo Familião do Huck , o vendedor era dispensado quando tinha três desempenhos abaixo de 90% em suas vendas a cada três meses de campanha.

“Alunos dividem a atenção entre as explicações da professora e atividades pedagógicas realizadas em tablets.”


Acompanhe aqui comigo meu amigo e amiga. Hoje grandes corporações usam um sistema chamado “80/20 silencioso” esta é uma regra informal em que se espera que 20% vendam muito, 60% sobrevivam e 20% estão permanentemente ameaçados de corte, o foco desta estratégia é a performance da equipe. Se você é funcionário da educação já está fazendo a comparação certo? Pois bem! Mas se você não é, não se preocupe que já vai entender.


E onde já vimos tudo isso? Dirigentes, em uma certa reunião, foram incitados a cortar 20% dos seus piores diretores com baixo desempenho. Recentemente das 91 diretorias de ensino de SP, ou Ures com são chamadas agora, dispensou-se, segundo o Diário Oficial de SP, cerca de 20 dirigentes ou Coordenadores Gerais-Dirigente Regional de Ensino e a argumentação foi “Não atingiram as metas previstas”, fez as contas? coincidência? Sei lá, junte-se a isso o fato de mais de 250 diretores, dados também da imprensa oficial, serem afastados dos seus cargos em 2025 e 2026, também por baixo desempenho de suas unidades escolares. Mas vamos avançar nos dados um pouco mais. Os últimos resultados do SARESP e SAEB de 2025 nos mostram o seguinte: “15% de aumento médio”, mas em quê? De todo ecossistema educacional? Não! Do 2º, 5º e 9º anos apenas e somente em matemática e português. Muito complexo? Talvez! Mas vamos te esclarecer.

Pegue os 15% dos resultados, junte com os números de dispensa de gestores, misture bem as técnicas de mercado aplicados à educação e se pergunte: Compensa? Não me refiro aos problemas da educação, mas ao que se propôs para melhorá-la. E aí compensa? Você ouvirá com absoluta certeza! “Isso mesmo nossa estratégia funcionou! Veja os números!”. Numa empresa privada que vende Tele Sena, cuja tolerância é maior, diga-se de passagem, o aumento nas vendas é o objetivo. Mas vamos a pergunta, para a educação é essa a questão? Não seria o aumento do desempenho cognitivo do aluno? O pleno desenvolvimento, o preparo e exercício da cidadania, a qualificação para o trabalho? E quanto ao acesso à educação a permanência, e o padrão da qualidade do ensino? Aqui estamos falando dos artigos 205, 206 e 208 da Constituição Federal certo?

” Apresentação do crescimento de 15% nos indicadores do IDEB reforça o compromisso com a gestão escolar.”

Segura tudo isso aí um pouco, é muita pergunta! Vamos relembrar, relembrar é viver. Você se lembra dos meses de maio e junho quando estava na escola? Era pré férias, estávamos correndo para fazer as provas, entregar trabalhos e montar a festa junina, tinha as feiras de ciências, murais de cartolina, o professor já conhecia a classe e sabia quem tinha potencial e quem precisava de um “Carreirão” para andar nos estudos, e os alunos doidos para saírem logo de férias. O BI (Business Intelligence) da época era o coordenador, o diretor, a família e a consciência profissional. Dizia-se “Estude para ser alguém na vida”. Esse era o Zeitgeist (Espirito da época). Não estou dizendo que era bom, mas era diferente e também não estou dizendo que deveria ser assim, mas que devemos pensar sobre e seriamente neste tema. A pergunta seria “É isto mesmo o produção?”.

Dias de hoje as mães e pais mandam seus filhos para escola para “cuidar” deles enquanto trabalham. Veja bem! A função da escola segundo a percepção geral ganhou mais responsabilidade do que apenas ensinar, mas “cuidar” dos meus filhos oferecendo segurança, alimentação, disciplina, controle comportamental, acolhimento, preparo para o mercado, vestibular, inclusão social e digital, e saúde mental. Ufa! Esqueci alguma coisa? E tudo isso num espaço que acaba oferecendo estabilidade mínima ante ao contexto social atual.

Continuemos a organizar nossas cacholas! Por acaso você sabe quantas plataformas os professores têm de dar conta? Segundo a Sala do Futuro, portal que gerencia as plataformas, são 15 plataformas exclusivas para os alunos, e 45 de sistemas, totalizando 60 plataformas e cada qual com seu processo e fluxos diferentes, cada qual com seu login, senha, link de acesso, prazos e relatórios próprios. Daí é que nascem planilhas, dashboards, gráficos verdes, amarelos e vermelhos. A arte de aborrecer é dizer tudo. Então vamos lá!

Você Já se perguntou quantos computadores tablets ou pc a escola tem disponível para o seu filho na escola? Em 2025 o estado de são Paulo, segundo declaração do próprio governo em seu portal, disponibilizou 140 mil equipamentos, não vou falar de wifi e outros acessórios ok. Mas temos 3,5 milhões alunos, vamos fazer conta? São em média 25 alunos para cada 1 equipamento, mas espere! Estes equipamentos não são só para uso dos alunos, são pra uso do professor, para laboratórios, administração, reserva técnica e não se esqueça, tem os que tem de ir pra manutenção. Assim uma escola com mil alunos, algo comum na periferia de SP, opera diariamente com algo em torno de 25 e 30 máquinas, para mil alunos. Percebe o que o coordenador e o professor têm de fazer para atender a todos? E veja! A cobrança feita na reunião que citei acima era porque os alunos não estavam fazendo suas tarefas, entendeu?

“Gestores debatem metas e analisam gráficos de desempenho durante apresentação de resultados do aprendizado regional.”

Agora vamos lá! Pesquisas de intenção de voto indicam, e por enquanto só indicam, que este governo vai continuar no próximo quadriênio, desta maneira, indiretamente, a sensação da população é que tudo está bem! Inclusive a educação. Claro! “A escola esta aberta, tem comida, tem gente para cuidar de meu filho, tem até computador pra ele, as férias é só pra dar descanso para o professor, tadinho. Mas é um disparate porque ele ganha, e muito bem, pra ficar com meu filho, tem até bônus, Oxi”. Por que estaria ruim? Não se iluda! Ninguém vai querer saber das 60 plataformas ou as ameaças de corte das rainhas de copas da chefia, ou ainda a falta abundante de aparelhos digitais, além de outros temas polêmicos, como o desengajamento dos alunos em seus estudos. Um certo camarada, bravo com questionamentos de professores em um debate, disse “Não ta contente? Vai ganhar dinheiro com outra coisa!”, também já ouvimos “quem quer dinheiro não vira professor”, “Professora não ganha pouco, é mal casada!”, “quem não estiver satisfeito procure outro caminho”. “Ser professor é um Sacerdócio”.

Caro leitor! Comparando os dados e as reuniões de alinhamento entre gestores e centralizadores da educação fica evidente que se quer “educar o que o povo quer, para pobre votar em quem quiser?”.
“Tudo indica que a lógica do “verde” tende a continuar. Essa fusão de administração pública com marketing de Tele Sena e Familião mostra-se mais eficiente — a uma razão de 15% por ano — do que a educação em sua real função, que é educar. Mas educar o quê, e para quem? Por hora, talvez devêssemos perguntar à Rainha de Copas, de Alice no País das Maravilhas. Qual seria a resposta dela mesmo?”

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