Na semana ‘CONSCIÊNCIA NEGRA’ conheça histórias da história
Você já ouviu falar em ‘ Tebas’?
Antes que você pense na cidade antiga e em lonjuras, nós adiantamos: trata-se do mestre arquiteto que esculpiu São Paulo colonial.
Saiba, a seguir, detalhes da história desse personagem incrível.
‘Tebas’ era o apelido de um dos principais nomes por trás da transformação arquitetônica da cidade de São Paulono século XVIII.
Seu nome era Joaquim Pinto de Oliveir, um escravizado, gênio da cantaria (arte de talhar e trabalhar a pedra).
Nascido por volta de 1733, em Santos-SP, Tebas foi escravizado desde o nascimento.
Seu proprietário era o mestre de obras português Bento de Oliveira Lima, que o levou ainda jovem para São Paulo. Mas ali, em meio ao barro e à taipa que dominavam a paisagem urbana da época, Tebas faria história com suas mãos.
Mesmo em cativeiro, sem liberdade e sem direito a assinar seus projetos, ele se tornou uma das mentes e mãos mais importantes da arquitetura paulistana colonial.
Tebas dominava a cantaria, a arte refinada de talhar e trabalhar a pedra com precisão e elegância.
Ele não só entalhava blocos, ele desenhava o futuro da cidade, ainda que ninguém lhe desse crédito por isso.
Trabalhando principalmente para ordens religiosas como os beneditinos, franciscanos e carmelitas, suas obras foram fundamentais para a modernização do espaço urbano de São Paulo no século XVIII.

Após a morte de seu senhor, Tebas processou a viúva e conquistou sua liberdade aos 58 anos, um feito extraordinário num Brasil onde a escravidão ainda estava vigente a todo vapor.
Como alforriado não parou de trabalhar. Continuou em atividade até os 90 anos, quando veio a falecer em São Paulo, em 1811.
Seu corpo foi sepultado na Igreja de São Gonçalo, na atual Praça João Mendes, bem no coração da cidade que ele ajudou a construir.
Obras marcantes de Tebas:
- Chafariz da Misericórdia:
Na Rua Direita: o primeiro chafariz público de São Paulo. Canalizava a água do ribeirão Anhangabaú. Era um ponto vital para a cidade e, ao mesmo tempo, um lugar de sociabilidade para os escravizados, que ali buscavam água para seus senhores. Infelizmente, foi demolido em 1866, mas sua importância permanece viva na memória da cidade. - Fachada da Igreja da Ordem Terceira do Carmo:
Os três arcos da fachada que ainda estão de pé no centro de São Paulo foram criados por Tebas. Uma obra de imponência e técnica. - Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco: Outra joia arquitetônica marcada pelo trabalho de Tebas, ainda presente no centro velho.
- Reforma da torre da antiga Catedral da Sé: Participou da reestruturação da torre da antiga igreja que existia onde hoje é a atual Catedral da Sé.
A antiga construção foi demolida em 1911, mas Tebas esteve ali.
Se a arquitetura colonial de São Paulo ainda estivesse preservada, em vez de destruída, poderíamos fazer uma lista gigantesca de seu trabalho.

Essas obras não são apenas construções de época: são o testemunho silencioso de uma genialidade abafada. E por muito tempo, ninguém falava de Tebas.
Nenhum nome nas placas. Nenhuma aula na escola. Nenhuma linha nos livros de arquitetura.
Resgate:
Mas em 2018, o Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (SASP) reconheceu oficialmente Tebas como arquiteto. Um marco tardio, mas simbólico.
Em 2020, o Google Brasil homenageou Tebas com um Doodle, apresentando para milhões de pessoas a figura desse gênio negro que moldou São Paulo.
O livro “Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata”, organizado por Abilio Ferreira, reúne pesquisas, relatos e documentos sobre sua vida e obra. Já a dissertação de mestrado de Luis Gustavo Reis, intitulada “A trajetória de Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas: trabalho, escravidão, autonomia e liberdade em São Paulo colonial (1733-1811)” é leitura obrigatória para quem deseja conhecer a fundo a obra desse artista genial.
Leituras Livres
Fonte: Paulistânia Tradicional (FB)

