“Alguns ensinam a ler. Outros ensinam a amar.”
Trinta anos limpando o mesmo pátio, varrendo as mesmas folhas, ouvindo o mesmo sino.
A escola envelheceu comigo.
Os muros ganharam rachaduras, os bancos perderam tinta, e as vozes das crianças viraram lembrança que ecoa entre as salas vazias.
Depois da aposentadoria da diretora, deixaram de usar metade do prédio.
Eu continuei.
Porque alguém precisava cuidar — e porque, no fundo, eu não sabia fazer outra coisa.
A solidão não me incomodava.
Ou pelo menos, eu achava que não.

Foi numa sexta-feira de chuva que encontrei o cachorro.
Estava encolhido debaixo da arquibancada da quadra, tremendo.
Moleque magro, pelo preto e branco, o olho machucado e a coleira arrebentada.
Pensei em chamar a zoonose, mas quando olhei pra ele, vi algo familiar:
a vontade de ficar, mesmo sem saber se era bem-vindo.
Peguei um cobertor velho do almoxarifado, enrolei o bicho e levei pra minha salinha nos fundos.
Dei um pouco do pão com café que eu guardava pra tarde.
Ele comeu e dormiu ali mesmo, no tapete surrado.
No outro dia, quando cheguei, ele já estava me esperando na porta.
Latindo baixinho, abanando o rabo.
E assim começou.
Passei a trazer comida, depois uma coleira nova, depois o costume.
Chamei de Giz.
Porque apareceu entre os quadros e o pó, e porque, como eu, parecia apagado, mas ainda deixava marca.
Os meninos voltaram às aulas um mês depois.
Quando viram o cachorro, foi festa.
“É o cachorro do seu Adalberto!”
E eu, que nunca fui homem de sorriso fácil, ri.
Pela primeira vez em muito tempo, a escola tinha barulho de novo — e eu, motivo pra ficar até mais tarde.
O Giz virou mascote.
Acompanhava os alunos até o portão, corria atrás das bolas na quadra, deitava nas sombras do pátio como se tivesse nascido ali.
Um dia, um inspetor novo perguntou:
“Por que o senhor cuida tanto desse cachorro? Não é seu trabalho.”
Eu respondi sem pensar:
“Porque alguém precisa cuidar de quem fica.”
E fiquei.
Mesmo quando o Giz adoeceu e já não conseguia correr, continuei levando ele comigo todo dia, no carrinho de limpeza, feito passageiro de honra.

Hoje, já aposentado, ainda passo na escola de vez em quando.
Levo flores pro jardim, dou bom-dia pro porteiro novo.
E sempre que olho o pátio, juro que ainda vejo o Giz correndo entre as árvores.
Às vezes o vento levanta o pó do chão e parece até rastro de pata.
Na minha casa, na parede da sala, tem uma foto nossa:
eu de vassoura na mão, ele com a língua de fora e o pátio ao fundo.
Embaixo, escrevi com giz branco numa moldura preta:
“Alguns ensinam a ler. Outros ensinam a amar.”
Fonte: Facebook – Meu cachorro é o bicho

