História que o povo conta

Vovó depois de morta aparece para sua neta Clara

Era jantar de domingo. Mesa posta, arroz soltinho, carne assada, todo mundo reunido: eu, marido, meus dois filhos e minha irmã. Conversa animada, risadas, o de sempre. Minha caçula de 4 anos, Clara, no cadeirão, comendo com as mãos, feliz da vida.

De repente, ela para. Aponta com o garfo sujo de molho pra cadeira vazia no canto da sala de jantar — aquela que ninguém usa há meses, cheia de almofadas amontoadas.

Com a boca meio cheia, olhos brilhando, ela diz alto e claro:

  • “A vovó tá sentada ali sorrindo!”

O garfo caiu da minha mão.

Silêncio na mesa. Todo mundo olhou pra cadeira. Vazia. Almofadas tortas. Poeira no canto.
Minha irmã deu risada nervosa:

  • Que imaginação, né, Clara?
    Eu forcei um sorriso, coração acelerado:
  • Come tua comida, filha. Cadê a vovó, amor?

Ela bateu palminhas, apontando de novo:

  • “Ali! Sorrindo! Ela tá de vestido azul, cabelo preso, tá acenando pra mim!”
    Minha mãe morreu há 6 meses. Infarto em casa, enquanto dobrava roupa. Nunca mostrei foto dela pras crianças. Nunca falei muito sobre ela na frente da Clara. Ela não tinha como saber do vestido azul (favorito da vovó), nem do cabelo sempre preso em coque baixo.
    Pedi pra ela descrever mais. Clara continuou:
  • “Ela tá feliz, mamãe. Disse que tá bem e que eu sou bonitinha.”

A família desconversou.

  • “Criança vê anjo da guarda”, “imaginação fértil”, “coincidência”. Mas eu não conseguia tirar da cabeça.
    Três dias depois, limpando o armário da minha mãe que ainda não tinha doado, achei uma carta escondida dentro de um livro velho da Bíblia dela.
    Papel amarelado, letra trêmula. Dirigida pra mim:
    …”Filha,
    Se você ler isso um dia, me perdoa. Eu fui dura contigo quando você era moça. Tinha medo de te ver sofrer como eu sofri. Mas errei feio. Nunca soube dizer que te amava em voz alta.
    Se eu partir antes de te falar isso, saiba: você foi meu maior orgulho.
    Me perdoa e vive feliz.
    Mãe”.
    Lágrimas embaçaram tudo. Aquela carta era de anos atrás. Minha mãe nunca me entregou. Guardou por vergonha, por não saber como pedir perdão.
    Voltei pra Clara naquela noite e perguntei baixinho:
  • A vovó falou mais alguma coisa?
    Ela sorriu, como se fosse segredo:
  • “Ela disse pra você ler o livrinho dela. E que tá orgulhosa.”
    Fechei os olhos, peito apertado. Minha mãe, que nunca soube demonstrar afeto em vida, apareceu na cadeira vazia pra minha filha ver. Sorriu. Acenou. Ficou na reunião familiar.
    Porque crianças pequenas ainda vêem o que os adultos esquecem de enxergar: entes queridos que voltam pras mesas de jantar, pras datas especiais, pras rotinas simples, só pra dizer:
  • “Eu tô aqui. Eu te vejo. Eu te amo.”
    Desde aquele dia, deixo a cadeira vazia na mesa. Às vezes, coloco um pratinho a mais. E falo com ela em silêncio:
    …”Desculpa se fui dura também, mãe. Te perdoo. E te amo mais do que disse.”
    Clara aponta pra cadeira de vez em quando, feliz:
  • “A vovó tá aqui de novo!”
    E eu sorrio, porque agora sei: ela está mesmo.

Fonte: Facebook – Chico, Cartas de Paz e Consolação

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