História que o povo conta

Cão adota ser humano

Hoje, fui eu quem adotou um humano.
Ele estava ali, com o olhar perdido e os ombros pesados, como quem carrega o mundo dentro do peito. Algo no ar doía, eu senti. Os humanos exalam cheiros que nem eles percebem, e aquele ali… cheirava a solidão, a coração partido, a cansaço de existir.

Quando nossos olhos se encontraram, algo mudou. Eu vi a alma dele. Estava em silêncio, implorando por socorro. Ele sorriu tímido, mas seus olhos… ah, seus olhos marejados diziam tudo. Não pensei duas vezes. Lati com a força que tenho quando algo é urgente. E era. Aquela vida precisava da minha.

Aproximei devagar, deixei que sentisse meu cheiro, minhas intenções. Quando suas mãos tocaram meu pelo, senti sua vibração mudar. O coração dele bateu mais forte. E o meu também. Uma lágrima escorreu em sua bochecha, e sem saber o que mais fazer, apenas lambi, como se dissesse: “Calma, eu tô aqui. Você não está mais sozinho.”

Naquele instante, ele sorriu com os olhos e me abraçou como se me conhecesse há muitas vidas. Talvez conheça mesmo. Talvez, em algum lugar entre o céu e a Terra, eu tenha pedido para encontrá-lo. Talvez esta seja a minha missão: resgatar o humano que a vida quase engoliu.

Hoje, ele pensa que me adotou. Mas foi a minha alma que escolheu voltar só para encontrá-lo naquele quarteirão esquecido, naquela tarde comum, entre passos apressados e olhos distraídos. Sorte dele. Sorte minha.

Hoje, eu salvei uma vida. Hoje, eu adotei um humano.

Fonte: Diário Espírita

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