Educação

O Aluno, A Prova e os Pais: O que a Escola Tem em haver com isso.


Por João de Loyola


Olá, amigo leitor, amiga leitora. Vamos sem delongas ao primeiro ato. No corredor da direção, algumas mães aguardavam atendimento. A pauta variava: faltas, disciplina, justificativas, esperança. A diretora estava com uma das mães, quando o celular tocou:

— “Alô?… A senhora é mãe do aluno tal?… Seu filho foi preso agora há pouco… roubo de moto… bem em frente à escola.” Ela engasgou com o ar, pediu licença e saiu correndo. A diretora chamou a próxima da fila. A mulher também atendia o celular: — “Diretora, a polícia tá me ligando. Disseram que encontraram minha moto roubada, e foi aqui na frente da escola! Vou lá ver agora. Ô meu Deus…” A diretora olhou. O silêncio durou três segundos até ela chamar a próxima mãe. Você, leitor, percebeu o que ocorreu?
Neste segundo ato, na sala da coordenação, outra mãe. — “Meu filho? Ele é o mais admirado.

Responsável. O mais novo o adora! Não, ele não fez isso não… parece até que foi outra pessoa.” Enquanto a coordenadora exibia um histórico de ocorrências e atos infracionais, a mãe rebatia como uma mantrista de fé: — “Tá amarrado em nome de Jesus. Ele não faria uma coisa dessas.” Meses depois, um professor entrou ofegante na sala: — “Lembra do menino daquela mãe? Ele bateu nela.”


Sigamos ao terceiro ato. Na reunião pedagógica, um professor exibe um vídeo. Dois alunos roubam uma moto, gritam bravatas e slogans tribais: — “Aqui é a tropa!” O vídeo termina. Outro professor mostra uma foto: quinze alunos fazendo gestos de arma. Um silêncio constrangedor se instala. Até que alguém sussurra: — “É… e somos nós que damos aula pra eles…”


Agora, respire. Vamos falar de algo desconectado dos atos acima: a avaliação escolar. Você conhece essas siglas? ENEM, SAEB, SARESP. Sabe diferenciá-las? Te ajudo: ENEM: Avaliação individual para alunos que completaram o ensino médio, seu objetivo é verificar o nível de conhecimento da população brasiliera ao final da educação básica, porém o que a socidade pensa é que ele é porta de entrada para a universidade, um símbolo social de sucesso. SAEB: Avalia redes de ensino, serve para o IDEB — aquele ranking que faz o Paraná dormir tranquilo como o melhor sistema de ensino em 2024, para a sociedade uma nota de rodapé no bilhete da professora implorando para o aluno não faltar no dia da “prova do SAEB”. SARESP: Avaliação paulista, o SAEB do estado de São Paulo. Para a sociedade em geral serve para pagar bônus para professor, vai falar que não pra tu ver.


Toda escola tem seu zeitgeist — o espírito do tempo. Às vezes é a matrícula, às vezes é a atribuição de aulas, o conselho de classe, a nota semanal no BI, a nota de final de ano, os atendimentos diários a pais de alunos. Agora, estamos na temporada do “SAEB”, 4o bimestre, para o aluno apenas final de ano. Para os pais, período em que os professores tem de dar notas aos seus filhos e em seguida, tirarem férias para gastarem o rico sálario e o 13o, e droga, a escola vai fechar, onde vou deixar meu filho. Já para a Escola o espirito é outro. A preocupação atual não é se o aluno aprendeu, mas se a nota do SAEB vai subir — tudo isso sem cair o resultado de engajamento nas plataformas digitais e mantendo os alunos indo para a escola todos os dias para que o “Aluno Presente” não caia. Antigamente era preocupação do aluno “Fechar as notas”, hoje é da escola. Então, promover festas, jogos e prêmios como saídas pedagógicas a parques de diversão para os alunos mais aplicados e realizar simulados intensos com perguntas e respostas são algumas estratégias para que os indicadores não caiam, sobretudo o SAEB, lembra pra que ele serve?


Um aluno então pergunta em relação ao SAEB: — “Essa prova vale nota?” A coordenadora responde: — “Ajuda a escola a ser bem avaliada…” — “É igual ao ENEM?” perguntou outro aluno. — “Mais ou menos…” respondeu a coordenadora. — “Ah, é pra vocês ganharem bônus então.” replicou. Outro aluno vai além: — “Essas prova aí não vira nada não. A gente vai passa do mesmo jeito.”
Vamos juntar tudo, adicionar os sistemas avaliativos, temperar com a indiferença estudantil mais a representação social e o espírito do tempo escolar. Sirva quente ao educador.


Deixa eu te perguntar uma coisa: Por acaso é esta a escola que inspira, que vai oferecer um futuro melhor a nossos jovens, que promove o respeito com nossas mães e a sociedade? É essa a escola que promove líderes, intelectuais, grandes artistas ou simplesmente cidadãos de bem…?
Talvez errados estejamos nós, em não vermos que certos são os sistemas rankeadores, e por eles vermos que a educação é eficiente. Certos são os inofensivos alunos cujos desejos desenfreados devem ser atendidos sob pena de quê mesmo? Certo estão os pais e sociedade em que clamam a necessidade social de manter seus filhos num lugar “Seguro” se possível 24 horas por dia, Ah! As escolas não funcionam 24 horas por dia não é mesmo?
Mas me diga, o que você espera da escola, ou o que Alho tem em haver com bugalhos?
Por João de Loyola.

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