Educação Paulista

“Vossa Eminência a Coordenadora”


Por João de Loyola
Era noite, periferia de São Paulo — claro. No pátio, no intervalo do período noturno, entre gritos, casais de “namoradinhos” tramando escapadas, um aluno filmando o outro comendo no banheiro, uma fila de merenda que nunca acaba, e aquele cheiro de descontrole institucional no ar. No meio do furacão: ela. A coordenadora. Não um mito. Não um cargo. Mas um corpo. Solitária, em campo aberto, como única muralha entre a barbárie e a educação.
De repente, como num estouro de boiada, duas alunas iniciam uma luta corporal. Logo, mais sete se engalfinham atrás. Alunos urram, gravam, pulam, outros jogam comida no ar como gorilas em rito de domínio territorial. A coordenadora — sem colete à prova de caos — tenta separar a primeira dupla. Leva socos, pontapés, cusparadas. É puxada. E segue. Professores surgem, vice-diretora aparece. Mas o caos é ancestral, visceral, comunitário: mães com celulares em punho, batem no portão, invadem. A “rinha familiar” já existia antes da escola e esta só foi o ringue.


A polícia chegou. Mas ali irmão, o estado não se impõe “Vem! põe a mão em mim pra você ver..” falou uma das mães afrontando o policial que só observava a movimentação. Só a família poderia dizer o momento de parar. Enquanto isso, os professores puxavam alunos nas salas. E as aulas? Ah… você pode imaginar como foram. Naquela noite o silêncio quedou à meia noite, a coordenadora só dormiu às 2 horas da manhã.


No dia seguinte, sem tempo para cicatrizar hematomas nem para digerir a desordem, a coordenadora recebeu a visita da Diretoria de Ensino (atual URE – Unidade Regional de Ensino). Na pauta da reunião: Relatórios não entregues, Indicadores do super BI abaixo da meta, lançamento da frequência de aluno incorreta. E, claro, “por que os alunos não fazem as atividades nas plataformas?”. E sobre a confusão do dia anterior? Nada. Aquilo foi coisa de Nárnia.


A função de Professor Coordenador é regulamentada pela Resolução SE 75/2014, no Estado de São Paulo. Ali se lê que ele é o responsável por: Planejar e coordenar as Atividades de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC), Acompanhar os dados de rendimento dos alunos, Articular o projeto pedagógico, Dialogar com os professores, Mediar conflitos, Formar docentes em serviço, Estar disponível, presente e equilibrado — mesmo quando tudo ao redor ruir.


Não se diz, contudo, o que fazer quando:A escola tem 30 computadores para 300 alunos, Só duas salas, das 5 do período, estão com professores, não tem professor de física e química. As aulas vagas, pela legislação, devem ser cobertas por professor eventual que não tem formação em física ou química diga se de passagem, um luxo que poucas escolas têm. Na falta do eventual, alguém da gestão, a mesma que tem de dar conta das planilhas e apaziguar guerras entre alunos, deve assumir a aula, “Já dei 16 aulas esta semana.” falou uma coordenadora com tom de desolação durante a visita da equipe da URE,
A internet cai a cada minuto, Não há estrutura, nem pessoal, nem condições.

O coordenador (ou melhor, a coordenadora, pois a maioria são mulheres) é a peça invisível mais acionada da escola. É dela o nome mais citado: “Chama a coordenadora”, “Resolve com a coordenadora” “A coordenadora tem que dar um jeito” “ Coordenadora! Acho que estou grávida!”
Foram nove atendimentos a alunos em uma hora. Um a cada seis minutos. No whatsapp há uma cobrança de um formulário do PNLD – Programa nacional do Livro Didático – não respondido .
Mas o que elas dizem, que ninguém escuta…
“A Thayná está com nota baixa porque depois que engravidou parou de vir.”
“Tenho 300 alunos e 30 computadores.”
“Onze professores faltaram num só dia.”
“Segurei três salas sozinha.”
“A internet só funciona na rua.”
Mas gritam e perguntam para a pobre alma:
“Por que os resultados não melhoram?”
“Cadê os indicadores positivos?”
“Quantos alunos concluíram as atividades da plataforma?”


Amigo leitor, se o diretor é o rosto da escola, e o professor a voz, o coordenador é a coluna vertebral. Aquela que sustenta tudo — até o invisível – de tal forma que a onipresença, onisciência, onipotência são atributos desejáveis nesta persona. Perca um coordenador, por mais frágil que ele seja, e veja a escola claudicar como um corpo que perdeu o eixo.
Ela é uma ponte quebrada e estrutura essencial. Não lidera oficialmente, mas é responsável por liderar tudo. É cobrada como gestor, tratada como servidor, paga como professor. E ainda assim, resiste. Entre relatórios, gritos, socos e planilhas.
Enquanto a escola girar, haverá uma coordenadora no centro. Ela talvez não fale muito. Mas é só porque ninguém ouve.”

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