O professor da Sala 8
Por João de Loyola
22h15. Quatro ou cinco dos 31 alunos matriculados estão sentados conversando com seus celulares quando o professor entra, cumprimenta a todos, abre seu tablet e procede a chamada e nesse ínterim, de forma acintosa uma das alunas dispara, “Ai tio! que horas a gente vai embora” o docente respira fundo e responde resiliente “As onze!” no que outro aluno responde “Ce é loko!” próxima sexta venho não nem arrastado!” em que a outra aluna disse, “Oxi, se é Bolsa, fio, e faltou muito, vacila que tu não recebe os duzentão!”
Não era brincadeira. Estava ali o retrato de uma escola que se choca com seu próprio propósito: a presença virou moeda, o aprendizado virou protocolo, e o aluno virou sobrevivente de indicadores sociais e mesmo assim os alunos se revezam controlando suas faltas de sextas, ao menos os “Bolsas” deste exemplo.

Há muito defendo uma tese que, embora simples, poucos ousam experimentar: todo líder operador de educação e formulador de política pública acima de diretor de escola e supervisor de ensino deveriam ministrar, ao menos, duas aulas às sextas-feiras no período noturno. De preferência as duas últimas. Não é metáfora, é mandamento.
E por quê? Porque é ali, naquele chão de taco velho ou piso rachado, que reside o Brasil real. Aquele onde a merenda é a única coisa que vale a pena, os tablets estão descarregados e quebrados, a internet não funciona e os alunos são os reis do pedaço, o professor um mero cuidador. E a esperança… essa está com sinal fraco,ainda.

Homens que dirigem grandes números da educação andam de foguete. Veem tudo sob a infinita beleza da órbita terrestre — suas curvas geográficas, suas metas percentuais, suas simulações de progresso em gráficos coloridos, seus votos sendo depositados. Acham que, de tão alto que estão, tocam a divindade. Alguns, com tempo e ego suficientes, passam a se julgar seus próprios criadores, especialistas de suas próprias convicções.
Mas a maioria das pessoas, ao menos 3,5 milhões de alunos em São Paulo, vivem abaixo da linha do satélite. Moram em casas tão frágeis que, em comparação a esses senhores dos sistemas, parecem vermes sob a grama verde de seus jardins mundiais em um condomínio triplo A. Essa é a distância entre o real e o ideal. Entre o discurso e a prática. Entre a meta e o menino.

O menino, por exemplo, é o da sala 8 que abriga no matutino o 1oB dos anos iniciais, no vespertino o 7oA do EFAF e no noturno o 3o C do EM. enfadado, impaciente, na esperança da avó deixar ele sair pra rua pra voltar sabe-se lá deus que horas e com o boné enfiado no rosto além do celular na mão. E o professor? Por conta da falta de 30% dos professores naquele dia está com duas turmas acumuladas na mesma aula e um boletim de ocorrências na pasta. A aula? A que der pra fazer.
Enquanto isso, os gestores globais elaboram diretrizes a partir de painéis virtuais de alto desempenho, onde “ensino híbrido”, “aprendizagem ativa” e “ecossistema pedagógico” saltam da tela como figurinhas premiadas. Não porque sejam falsos, mas porque não foram validados na sexta à noite.

Pesquisas sérias confirmam, como a do The Wallace Foundation em 2021, diz que líderes escolares que vivenciam a realidade da sala de aula decidem melhor, formam vínculos mais sólidos, reduzem evasão e entendem, de fato, o que funciona. Mas isso exige coragem. Exige sujar o terno no giz. E talvez, por isso mesmo, seja tão raro.
Porque a sexta à noite é sagrada. Não por ser fim de semana. Mas porque é quando a escola expõe sua ferida: a indiferença. Alunos indiferentes, professores esgotados, e um sistema que acredita que planilhas são suficientes para lavar a alma.
Não são.
A alma, senhores, exige presença. Corpo presente. Voz presente. Experiência real.
Ensinar às sextas-feiras à noite é como carregar a cruz de um sistema que teima em crucificar seus mártires no silêncio. Que os trata como gestores de conteúdo e não como artesãos de futuros possíveis.
Talvez um dia, quando a elite da educação descer de sua órbita e se sentar na cadeira de plástico da sala 8, entenderá que governar é menos sobre índices e mais sobre gente.
Quem sabe se aplicassem as ZDP de Vygotsky na sua gestão uma coisa seria percebida, que existe o ideal e o real e nossa função seria aproximar ao máximo uma a outra. Ou ao menos admitir que, às vezes, a distância entre elas só se mede com um giz na mão e uma alma do outro lado.”

