Educação Paulista

O Juiz da Educação – Vossa Excelência o Docente

Por João de Loyola


Amigo leitor, isso aconteceu de verdade.
Numa noite qualquer, de um mês qualquer, em uma escola pública paulista, o professor de matemática escreve exercícios na lousa. De costas, não percebe um aluno que se aproxima e passa a mão em suas nádegas. O garoto, 17 anos, sai rindo como quem faz uma piada.


O professor abre boletim de ocorrência. O aluno se defende:
— “Achei que ele era meu amigo”
A mãe complementa:
— “O professor deu liberdade. Meu filho é um bom menino em casa.”
A escola anota no livro de ocorrências.
O Conselho Tutelar não aparece. O Ministério Público? Silêncio.
Fim da história. Ou começo de uma tragédia anunciada?
Meu estupefaciente leitor, será apenas um choque geracional? Afinal, temos um professor de 60 anos, um aluno de 17 e uma mãe pouco mais velha que o filho. Ou estamos diante de algo maior: a erosão simbólica da autoridade docente e a naturalização de condutas inaceitáveis sob o manto da “liberdade”?
Hoje, parece que os papéis na educação não apenas mudaram: se dissolveram.

Quando a Educação encontra seu destino o aprender é naturalmente imersivo.


Vamos ao tabuleiro que chamamos de Educação. As peças estão todas lá — professores, alunos, famílias, gestores, governo. Mas as regras, alguém lembra quais são?
Para ilustrar, queridos, imagine:
Uma final de campeonato, estádio lotado, 22 jogadores e um juiz. O árbitro apita, mas ninguém chuta a bola. Um goleiro decide virar atacante. Um grupo come no círculo central. Outros sobem para a arquibancada. Alguns fogem para os vestiários. Os patrocinadores (que bancam a festa) assistem de casa, contando audiência.


Então te pergunto: Que jogo é esse? Qual o objetivo? Essa metáfora, amigo, não é exagero: é diagnóstico.
Temos de lembrar que, no futebol, quem apita é odiado por ambos os times. Na escola, o professor cumpre esse papel ingrato — mas sem apito, sem VAR, sem torcida. Apenas com um giz, um tablet quebrado e, muitas vezes, medo.
Medo de ser agredido, humilhado, processado por tentar impor um limite.


E o que vemos? Segundo organizações especializadas e professores que tomam as redes sociais para gritar suas dores, vimos que mais de 68% dizem não se sentir valorizados (OCDE/TALIS, 2022); Quase 30% planejam deixar a carreira nos próximos anos e quem quer se aposentar o fará assim que possível. Estudos preveem que nos próximos 5 anos 20%, cerca de 38 mil docentes, estarão se aposentando. Ao menos eu sou um deles.


Enquanto isso, o senso comum continua dizendo que professores “Têm férias grandes.” “Trabalha pouco.” e “Até tem carro!”, ainda “A escola tem a obrigação de cuidar do meu filho porque preciso trabalhar!”. Já os governos, como o do Estado de São Paulo, anunciam a toda voz investimentos, que no caso, estão na ordem de 250 milhões de reais só em notebooks para os mais de 3,5 milhões de alunos desta rede de ensino em 2025. Pode-se dizer que cada aluno teria um notebook de 74,42 reais. Note (com perdão do trocadilho) que o valor médio de um note decente no mercado é de R$2.200,00. E o que tudo isso nos diz?
Que cada ator da educação pensa e age como se estivesse sozinho na defesa de seus interesses, quando menos olhando para o próprio umbigo.
Então vejamos a luz da lógica: Aluno: quer liberdade sem responsabilidade; Família: cobra, mas não acompanha; Escola: registra ocorrências, mas não resolve; Estado: busca gráficos bonitos. E de quem é a culpa?

Esforço conjunto ou discurso ensaiado? Quando a educação vira palco, o futuro precisa estar na plateia.


De certo que é um jogo em que ninguém quer perder, mas ninguém joga para ganhar junto, nem na várzea é assim. Aliás acho que deveríamos começar pelos valores dela.
Será este o caos? Sim. É o caos da falta de regras claras, de valores partilhados e de propósito coletivo de entendimento do que é Educação em seu fundamento mais básico “Ensinar e aprender”.
Enquanto isso não ficar claro, seguiremos assistindo a lances grotescos como esse. E, no próximo caso, talvez não seja apenas uma “brincadeira” indevida. Será violência pura, descaso social, plataforma política, abandono de causa docente.


E aí, caro leitor, quem vai apitar a falta?
Porque, como será se o professor continuar sendo o juiz sem apito. Olhe amigo, prepare-se: A julgar pelo tempo de jogo este campeonato pode acabar sem vencedores.
Por : João de Loyola

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