É Sempre Bom Lembrar: O Que Se Esqueceu na Educação que Ninguém Quer Lembrar
Por João de Loyola
“Numa certa tarde, dias atrás, ocorria uma reunião entre diretores de escolas e a chefia de gabinete de uma secretaria de educação. Na pauta, o baixo desempenho dos alunos dessas escolas. O tom cordial do chefe e as palavras bem articuladas não foram suficientes para disfarçar a ordem subjacente: se os índices de desempenho não melhorarem, os respectivos diretores seriam substituídos.
Cenas como essa têm se tornado cada vez mais frequentes na educação brasileira: cobranças duras — às vezes açucaradas — em torno de metas e resultados em avaliações externas. Mas seria essa uma ação isolada de um gestor específico? Ou estamos diante de uma tendência mais ampla, que aproxima a gestão educacional dos modelos de desempenho típicos do setor privado, especialmente da lógica de vendas?

Diretores de Escola em reunião, discutem seus resultados.
Uma certa empresa de capitalização, por exemplo, só convoca reuniões desse tipo após três trimestres consecutivos de resultados insatisfatórios — e ainda assim, baseadas em estudos aprofundados sobre o comportamento dos clientes e as causas da queda nas vendas. No setor privado, portanto, prevalece o princípio da análise fundamentada. Já na gestão pública da educação, muitas vezes salta-se diretamente para o juízo e para a punição, como se a escola fosse apenas uma engrenagem falha em uma linha de produção que precisa ser trocada.”
É sempre bom lembrar. Numa república que se diz comprometida com o futuro, a educação deveria ser o centro de todas as prioridades. Mas o que se vê é justamente o contrário: um processo de apagamento dos fundamentos da educação que, aos poucos, vai tornando-se tão profundo quanto irreconhecível.
Recentemente, até para desencargo de consciência, fizemos um levantamento dos principais documentos legais e normativos sobre educação: da Declaração Universal dos Direitos Humanos à LDB, passando pelo Relatório Delors e pelo Plano Estadual de Educação de São Paulo. Em comum, todos eles apontam para uma educação que forme o ser humano em sua plenitude: para o trabalho, sim, mas também para a convivência, para a autonomia, para o pensamento crítico e para a cidadania. Entretanto, é como se todos esses fundamentos estivessem sendo esquecidos.

A memória da educação tem sido seletiva. Esquece-se que educar não é apenas treinar para o vestibular, nem apenas preencher lacunas de conhecimento cobradas em avaliações externas. A educação foi reduzida ao propedêutico e ao produtivismo. Como se fosse possível fabricar alunos em linha de montagem, polidos com simulados e planilhas, prontos para produzir indicadores. O que se esqueceu é que cada aluno é também um sujeito com história, com dores, com desejos e medos.
E é também bom lembrar que é cada vez menor o número de professores qualificados na rede pública. Os dados mais recentes do INEP apontam que em algumas regiões do país, mais de 40% dos docentes do Ensino Médio não possuem formação adequada na área em que atuam. Soma-se a isso o adoecimento crescente da categoria: síndrome de Burnout, depressão e distúrbios de ansiedade são cada vez mais comuns. Quem educa os educadores? Quem cuida de quem deveria cuidar?
No outro extremo da sala, estão os alunos, entregues ao império das redes sociais, ao TikTok, ao Instagram, ao vídeo de 15 segundos que ensina muito mais sobre o que é consumo e ostentação do que sobre o que é cidadania. Mestre deles não é o professor, é o algoritmo.

Presidente brasileiro da ONU comemora resultados otimistas para a nação. Caso lembremos dos fundamentos, quem sabe conquistaremos um melhor mundo!
E os pais? Parte deles foram empurrados a compreender a escola como um espaço de assistência. Não por falta de amor ou engajamento, mas porque o Estado os desresponsabilizou. A escola virou lugar de alimentação, cuidado e vigilância. A missão de educar, partilhada por três esferas (família, escola e Estado), ficou jogada sobre os ombros do professor e da coordenadora pedagógica.
Mas não para por aí: os sistemas de avaliação em larga escala se tornaram fíns em si mesmos. As escolas se veem pressionadas a “entregar resultados” a todo custo. Não raro, o que se mede não é a aprendizagem real, mas a capacidade de simular desempenho em questões-padrão. O plano não é mais educar: é gerar dados para eleições. É permitir que, em 2026, em pleno debate presidencial, alguém possa dizer: “nossa educação é a melhor do país”. Às custas de que?
Talvez, às custas do silêncio de milhares de estudantes que já não veem sentido na escola. Que se satisfazem com a merenda, com o wi-fi, com a interação com os colegas. E que já desistiram de imaginar um projeto de vida.
Sim, é sempre bom lembrar. Porque talvez não haja nada mais revolucionário, hoje, do que devolver à educação aquilo que foi sua razão de existir: transformar vidas e melhorar a humanidade.
João de Loyola

