Pai foi condenado a 27 anos de prisão por abusar dos filhos, os filhos depois de crescidos negaram terem sidos abusados
Em 2002, depois de dez anos de casamento, Atercino Ferreira de Lima Filho se separou da esposa. Os dois tinham filhos pequenos, Andrey e Aline, que passaram a morar com a mãe e uma amiga dela, em Guarulhos, na Grande São Paulo.
Naquele momento, Atercino não imaginava que a separação seria o início de uma história que destruiria sua vida por anos.
Em dezembro de 2003, os filhos foram levados à Delegacia da Mulher. Ainda crianças, disseram que o pai havia abusado deles antes da separação. A denúncia deu início a uma investigação que mudaria o destino de Atercino.
A acusação era gravíssima. Atercino passou a responder por crimes que, segundo os relatos das crianças, teriam acontecido dentro da própria casa, durante os anos em que ele ainda vivia com a família.
Em 2006, veio a primeira condenação: 45 anos de prisão. Depois, em recurso, a pena foi reduzida para 27 anos.
Atercino continuou tentando provar sua inocência. Recorreu da condenação, mas, durante anos, não conseguiu mudar o resultado. Enquanto isso, seus filhos cresciam carregando uma história que, mais tarde, afirmariam ter sido obrigados a inventar.

Andrey, o mais velho, começou a tentar reverter a acusação em 2012. Ele procurou a Justiça e declarou que nunca havia sido abusado pelo pai. Disse que, quando criança, havia sido pressionado a mentir.
Em 2015, Aline também se retratou. Os dois afirmaram que a mãe e uma amiga dela os haviam coagido a acusar Atercino.
Mas a verdade que tentavam contar não mudou imediatamente o destino do pai.
Em abril de 2017, Atercino foi preso no próprio local de trabalho. Depois de anos recorrendo em liberdade, começou a cumprir a pena de 27 anos.
Foi então que os filhos decidiram lutar com ainda mais força para tirá-lo da prisão. Eles procuraram o Innocence Project Brasil, organização que atua na revisão de condenações injustas.
E foi durante essa tentativa de provar a inocência do pai que os irmãos revelaram detalhes aterrorizantes sobre o que diziam ter vivido na casa onde moravam.
Segundo seus relatos, eram ameaçados e agredidos pela mãe e pela amiga dela para sustentar a acusação. Descreveram espancamentos com cabos de vassoura e castigos físicos. Um dos episódios mais cruéis envolvia obrigá-los a ficar ajoelhados sobre grãos de milho.
A violência teria sido tão intensa que Andrey fugiu de casa algumas vezes e chegou a procurar abrigo.
Os irmãos contaram que não tinham liberdade para voltar atrás. Quando tentavam dizer que o pai não havia feito nada, eram pressionados a repetir a versão dos abusos.
Enquanto isso, Atercino permanecia preso por um crime que seus próprios filhos agora negavam ter acontecido.

A defesa apresentou novos depoimentos e uma avaliação psicológica, além de apontar inconsistências nas provas que haviam sustentado a condenação. Em agosto de 2017, Andrey e Aline reafirmaram diante de um juiz e de um representante do Ministério Público que haviam mentido quando crianças e que o pai era inocente.
A revisão criminal chegou ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
Em 1º de março de 2018, os desembargadores decidiram por unanimidade absolver Atercino. A Justiça reconheceu que ele havia sido condenado injustamente e determinou sua soltura.
No dia seguinte, depois de 11 meses preso, Atercino deixou a penitenciária de Guarulhos. Do lado de fora, abraçou os filhos. Em meio à emoção, disse que queria voltar para casa, comer uma pizza e estar com a família.
Mas a liberdade não apagava o que havia acontecido. Atercino havia passado 14 anos tentando provar sua inocência desde o início do processo, e quase um ano atrás das grades por um crime que a Justiça reconheceu que ele não cometeu.
O caso se tornou o primeiro erro judicial revertido pelo Innocence Project Brasil.
Uma família foi marcada por uma acusação devastadora. Um pai foi condenado e preso. E dois filhos, que afirmaram ter sido coagidos a mentir, precisaram crescer para conseguir contar a verdade.
A absolvição chegou. Mas os anos perdidos, o sofrimento e as feridas daquela história jamais poderiam ser devolvidos.
Fonte: Facebook – Emanuelli -Crimes Reais

