História Real

Uma tristeza muito delicada mora nesse amor.

O cachorro não sabe medir o tempo como a gente mede,
não conhece calendário,
não teme o futuro com palavras,
não faz contas sobre perdas que ainda não chegaram.
Ele apenas ama,
com uma inteireza tão limpa,
que às vezes comove mais do que muito afeto humano.

Os pelos vão mudando de cor,
o passo perde um pouco da pressa,
o focinho ganha sinais do tempo,
e o coração de quem observa começa a aprender uma dor silenciosa:
a de querer deter aquilo que nasceu para seguir o seu curso.

Cada manhã ao lado dele passa a ganhar outro peso.
O olhar demora mais.
O carinho fica mais demorado.
A presença, antes tão natural, começa a ser sentida como dádiva.

Amar um cachorro que envelhece é descobrir que o amor verdadeiro também treme.
Não por fraqueza,
mas porque reconhece o valor imenso de uma companhia que nunca exigiu perfeição,
nunca pediu explicações,
nunca fez do afeto uma disputa.

Na quietude desses anos, uma lição quase sagrada se revela:
certos amores não falam a nossa língua,
mas entendem a nossa alma.

E talvez seja por isso que o medo do fim aperte tanto.
Não pela velhice em si,
mas porque uma criatura assim transforma a casa em abrigo,
os dias comuns em memória,
e a vida em algo mais terno.

Enquanto ele respira perto, ainda é tempo de amar olhando fundo.
Ainda é tempo de agradecer em silêncio.
Ainda é tempo de fazer do agora uma eternidade pequena,
mas verdadeira.

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