Estudantes que se mudaram para São Paulo enxergam a USP como refúgio diante das dificuldades da cidade
Por Giulia Polizeli, Luiza Santos e Matheus Ribeiro*
Para quem vem de fora, São Paulo assusta — mesmo que seja para viver o sonho de estudar na melhor universidade do Brasil. Vindo de Brasília, Rafael Cartapatti chegou na capital paulista em fevereiro de 2026 para cursar Engenharia da Computação na Poli-USP. Durante a semana de recepção, ele e os outros novatos participaram de atividades de integração. Mas, para o ingressante, o que era novo teve um ar familiar: os pais dele o acompanharam na calourada.
A família mora no Plano Piloto, região nobre da capital nacional, e decidiu vir para acomodá-lo no novo ambiente. Receosa com a adaptação do filho, Fabiana Cartapatti diz que sentiu apreensão pela nova realidade de Rafael. “É a angústia de como ele vai se ajeitar lá”, relata.
O suporte e a preocupação que Rafael recebeu não fizeram parte da realidade de Sara Smiljanic, mestranda de Tradução Literária na FFLCH que chegou à USP em 2019, aos 17 anos. A estudante via o mundo fora de Goiânia como sinônimo de liberdade e “levou uma rasteira” em sua adaptação na cidade de São Paulo.
Além da saudade da família, Sara teve que lidar com o amadurecimento antes da maioridade. “Eu entendi o que era pagar conta e economizar com a comida e o aluguel, que é muito caro.” Durante a graduação, a aluna não recebeu nenhum auxílio financeiro, nem da universidade, nem da família.
Quando estava doente, a jovem precisava contatar os pais para ir ao médico, com medo de que algo acontecesse e ela não estivesse acompanhada dos responsáveis legais. A ausência de vínculos sociais em São Paulo fez com que Sara se sentisse desamparada no início da graduação na USP: “O que eu mais lembro do meu primeiro ano é o quanto foi solitário. Eu me sentia extremamente sozinha o tempo todo.”
Novos Territórios

Em um lugar onde não se sabe o que pode acontecer, a incerteza sobre o futuro se torna comum. Nathalia Rodrigues, mestranda no Instituto de Psicologia da USP, veio de Minas Gerais para estudar em São Paulo há 3 anos. A especialista relaciona o tema com suas próprias vivências e enfatiza que é natural que os estudantes se sintam angustiados: “Esse sentimento vem de um lugar, muitas vezes, solitário. Isso pode paralisar, mas também movimentar.”
A psicóloga destaca que a angústia pode levar o indivíduo a procurar novos laços e instituições, seja entidades estudantis e até organizações esportivas. “A busca por conexões em um novo ambiente nem sempre precisa ser negativa”.
Para Sofia Camargo, estudante do terceiro ano de Ciências Sociais, seus vínculos na capital paulista transformaram o que era medo do inédito em algo acolhedor. Vinda do interior de São Paulo, a estudante tinha receios de como seria a vivência em um novo lugar, por conta própria e longe de sua família.
“Deixem claro que eles sempre terão um lugar para voltar e que podem contar com vocês sempre que precisar”Johnann Camargo, pai de Sofia, estudante de Ciências Sociais
Os anseios continuaram ao longo de seu primeiro ano, mas foi no ambiente acadêmico que encontrou abrigo no meio das novidades: “Viver São Paulo era diferente de tudo o que eu havia imaginado. Mas a USP me presenteou com pessoas extraordinárias, que me mostraram a cidade por seus olhos e que ela também poderia ser minha casa”.
Para Johnann e Andreia Camargo, pais da Sofia, os laços estabelecidos na universidade foram essenciais no amadurecimento e na adaptação da filha na ausência da família. O apoio do casal, no entanto, segue inabalado independentemente da distância.
Nathalia evidencia que é importante que os parentes deem espaço para as novas vivências desses indivíduos, mas sem deixar de prestar suporte. Para a psicóloga, a saudade da família também faz parte do processo: “É um sentimento saudável e importante quando a tristeza não toma uma dimensão perigosa, como o isolamento”.
Saudade é natural
Aos 17 anos, Sara considerava que não era tão apegada à família, mas a mudança para São Paulo alterou essa percepção. A mestranda explica que a distância trouxe mais afeto para a relação com o núcleo familiar. “A gente só consegue ver o lado bom e sentir falta da relação”, diz.
O sentimento de saudade é algo presente na família Cartapatti, mas a tecnologia tem facilitado o processo de adaptação para os pais de Rafael: “A comunicação é muito boa, nesse sentido. Ela tranquiliza naqueles momentos em que você fica pensando como seu filho está”.
Nathalia considera que este momento da vida dos jovens é importante para que exista uma separação entre o desejo de viver os próprios planos e as expectativas impostas pelos parentes: “A instituição familiar se inicia para todo mundo com um ‘simbólico imposto’. Então, a gente cresce e se substitui como sujeito, a partir dessa relação sobre o que o outro espera de nós”.
É importante que o calouro tenha espaço para crescer e conhecer um novo mundo, com experiências fora da sua zona de conforto. “A USP é oportunidade”, diz Fabiana, “é conviver com a diversidade de pessoas, de interesses e temas. É algo em que vale a pena investir”.
Fonte:Jornal do Campus

