O Planejamento do Rei Nu ou a Liturgia do Saber
Por João de Loyola
“Contei 37 professores naquela manhã de sol, eles estavam perfilados em forma de U numa sala de aula de uma escola da periferia da Grande São Paulo, alguns riam outros estavam sisudos, outros apenas observavam. Na ponta aberta do U a gestão e a coordenação se posicionavam frente a tela com um ppt informando a pauta do terceiro dia de planejamento anual. Alguns bombons foram distribuídos com uma mensagem de boas vindas junto com um celofane contendo cadernos, lápis borracha e outros apetrechos de papelaria. Ficaram sentados ali por mais 4 horas a fio, o mesmo tempo que os alunos em seus períodos de aulas regulares. Lá pelas tantas a diretora dispara “O sofrimento de tratar com os alunos de hoje é de todos, veja meu caso, sou preta, gorda, feia, véia, corinthiana e pobre então vejam o quanto de assunto o aluno tem quando me vê!” no que um professor bonitão lá do fundo responde indignado “Ôooo Diretora pobre a senhora não é não viu!” A rica Diretora ficou parada sem resposta enquanto o resto do grupo ria aos borbotões, ainda pode-se ouvir o professor dizer ao fundo “Ué gente! E não é verdade, pobre ela não é!”

Há um momento curioso no calendário escolar que se repete todos os anos com uma pontualidade quase religiosa. Ele acontece no início do ano letivo ou na virada de semestre, quando professores e gestores se reúnem para o que se convencionou chamar de planejamento anual.
É um evento organizado com cuidado.
Datas separadas e calculadas com precisão, mesas dispostas, projetor ligado, café passado e até bombons. Há vídeos motivacionais, frases inspiradoras, dinâmicas de integração e, quase sempre, uma mensagem sobre o poder transformador da educação.
O coordenador conduz a pauta com zelo, o diretor aproveita bem o momento para proferir sobre as regras do jogo para o ano.
Os professores se acomodam nas carteiras e, por algumas horas, experimentam o papel de ouvintes.
Ali são apresentados os combinados do ano. Os indicadores que precisam melhorar. As metas que precisam ser atingidas. Os projetos que deverão acontecer.
As planilhas que precisarão ser preenchidas.
Tudo é registrado com esmero. Em alguns casos, um representante da diretoria de ensino acompanha o encontro, redige um termo e parabeniza a escola pela organização da reunião.
Do lado de fora da escola, porém, há um personagem ausente. O aluno. Para ele, aquele dia é apenas mais um feriado inesperado. Uma folga no calendário.
Mais um dia em casa enquanto os adultos discutem o que será feito com sua educação.
Quando o planejamento termina, os professores voltam para suas casas com pastas cheias de documentos. Planos anuais. Planos bimestrais. Planos de aula. Planos de recuperação. Planos para alunos com necessidades específicas.
Tudo está devidamente planejado. Ou assim parece.
Porque no dia seguinte a escola volta ao seu estado natural: a realidade.
A escola que existe
A aula começa às sete. Trinta e cinco alunos ou mais, entram na sala. Alguns com sono, outros com fones de ouvido, alguns com fome, alguns com problemas que nenhum plano anual conseguiria prever. O professor abre o material didático. Lição 1. Página 1. Atividade 1.
No papel, aquilo é execução do planejamento. Na prática, é sobrevivência pedagógica.
Entre uma explicação e outra surgem conflitos, dúvidas, interrupções, questões disciplinares, alunos que não compreenderam o conteúdo anterior, outros que não estavam presentes na aula passada, ou simplesmente estão ao celular alheios a tudo e todos e vai tirar pra ver.
No meio da semana surge um novo formulário. Um novo relatório. Um novo indicador que precisa ficar verde no painel do sistema. E assim a escola segue navegando. Não exatamente conforme o planejamento. Mas conforme a tempestade do cotidiano.

Foto arte – Edilson Fernandes – Indicadores Reais para uma sala real.
O verdadeiro plano da escola
Existe uma curiosa inversão nesse processo. O planejamento oficial da escola está nos documentos. Mas o planejamento real está nas decisões tomadas durante a aula.
Quando o professor decide: explicar novamente um conceito que não foi compreendido,
adaptar uma atividade, mediar um conflito, mudar a estratégia para alcançar aquele aluno que parece sempre distante. É ali que o ensino acontece. Não na ata da reunião. Não no arquivo salvo no computador. Mas na intencionalidade do ato pedagógico.
A obsessão pelos números
Nos últimos anos a escola passou a conviver com um novo protagonista: os indicadores. SARESP. SAEB. Provas externas. Painéis de acompanhamento. Sistemas que mostram gráficos coloridos indicando se a escola está melhorando ou não. Eles têm seu valor.
Sem dúvida. Mas também carregam um risco silencioso: transformar a educação em uma corrida por números que, muitas vezes, ignoram as condições reais do processo educativo.
Porque o desempenho de um aluno não depende apenas de sua capacidade cognitiva. Depende de sua saúde. De sua família. De sua alimentação. De sua estabilidade emocional. De sua frequência. De seu acesso à tecnologia. Nenhuma empresa industrial opera com tantas variáveis fora de controle. Ainda assim, exige-se da escola uma previsibilidade quase matemática.

Foto arte – Edilson Fernandes – Indicadores Ideais para uma educação Ideal
O ritual e a realidade
Talvez por isso o planejamento anual tenha adquirido um caráter quase litúrgico. Ele funciona como uma cerimônia de início de ciclo. Um momento simbólico em que a escola afirma, diante de si mesma, que sabe para onde está indo. Mas, como em certas procissões religiosas, há um detalhe curioso. Depois que a procissão passa, o tapete é varrido. A rotina volta. E a escola continua sendo conduzida por algo muito mais poderoso que o documento formal: a prática diária de quem está dentro da sala de aula.
O rei nu
Existe um conto antigo de 1837 que ajuda a entender esse fenômeno “A Roupa nova do Imperador” de Hans Christian Andersen, também conhecida como “A Roupa do Rei Nú”
Nele, um rei é convencido por dois alfaiates de que está vestindo uma roupa magnífica, invisível apenas para os tolos e incompetentes. Ninguém tem coragem de dizer que não vê a roupa. Até que uma criança, olhando para o cortejo, diz simplesmente: “O rei está nu.”
Talvez algo parecido aconteça com o planejamento escolar. Todos concordam que ele é essencial. Todos repetem que ele é fundamental. Mas poucos admitem uma verdade simples: um plano só existe de fato quando ele se transforma em ação cotidiana. Sem isso, ele é apenas um documento elegante. Uma roupa imaginária.

Foto arte – Edilson Fernandes – Planejamento e aula andam juntos.
O verdadeiro planejamento
Talvez o caminho não seja planejar mais. Mas planejar menos e agir com mais intenção. Um bom planejamento escolar não deveria produzir pilhas de papéis. Deveria produzir perguntas permanentes: Onde nossos alunos estão agora? Qual é o próximo passo possível? O que vamos fazer esta semana para avançar? Como vamos saber se funcionou? O que precisamos ajustar?
Essas perguntas, repetidas continuamente, fazem mais pela aprendizagem do que qualquer documento elaborado no início do ano.
No fim das contas, o planejamento mais importante da escola acontece em um lugar muito simples. Dentro da sala de aula. Entre o professor que ensina e o aluno que aprende. Todo o resto — atas, relatórios, metas e indicadores — deveria existir apenas para sustentar esse encontro. Se não for assim, talvez devamos ouvir com mais atenção a criança do conto.
Aquela que, sem medo de desagradar, aponta para o cortejo e diz o que todos veem, mas poucos ousam afirmar.
O rei está nu.
Por João de Loyola

