“Ele não foi abandonado. Ele ficou por amor.”
O porteiro do cemitério disse que ele apareceu no dia do enterro.
Veio seguindo um dos carros, quieto, com o rabo entre as pernas.
Ficou perto da lápide recém-coberta, sem fazer alarde.
Não latiu. Não chorou.
Só deitou no chão de terra batida e encarou a cruz de madeira.
Desde então, não saiu mais.
No começo, pensaram que fosse de algum visitante.
Mas os dias passaram e ninguém voltou pra buscá-lo.
Tentaram enxotá-lo, dar comida longe, atrair com assobio pra fora do portão.
Nada.
Ele voltava pro mesmo ponto.
Sempre à mesma hora.
De manhã, esperava o sol nascer entre as árvores.
À tarde, acompanhava os passos dos velhos que vinham visitar os túmulos.
À noite, dormia encostado no túmulo dela.
Não sabemos o nome.
Não sabemos se ela era jovem ou idosa, se moravam juntos ou se ela o alimentava na rua.
Só sabemos que ele a seguiu no último caminho.
E parou ali.
Como se aquela ausência fosse o novo endereço.

Os coveiros começaram a cuidar.
Davam ração, limpavam o canto onde ele dormia, colocaram até uma coberta velha que alguém deixou.
Mas ele nunca cruzou o portão de saída.
Uma florista contou que já viu isso antes.
Cachorros que ficam.
Que esperam.
Porque não entendem o que é “fim”.
Só sentem que a pessoa desapareceu — e se recusam a aceitar.
Hoje, faz 47 dias.
Ele ainda está lá.
A pelagem mais suja, os olhos mais fundos.
Mas o corpo segue firme.
O olhar, insistente.
Não sabe o que é morte.
Mas sabe o que é amor.
E por isso espera.
Alguém rabiscou numa faixa de pano e pendurou na grade do cemitério:
“Ele não foi abandonado. Ele ficou por amor.”
E toda vez que passo por lá, vejo ele quietinho, encostado, com o olhar fixo na eternidade.
E penso:
Se tivesse alguém me esperando assim, mesmo depois da partida…
Eu ia querer voltar, só pra dizer:
“Pode ir agora. Eu vi você esperando. E nunca vou esquecer.”
Fonte: Facebook – Incrível Natureza

