“Everybody Hates School.” – Todo Mundo Odeia a Escola
Por João de Loyola
Início das aulas: um reset simbólico
No primeiro dia de aula deste ano, a repórter de um jornal matinal entrevista uma mãe de aluno da escola pública:
— “Início das aulas! Como estão as expectativas?”
A mãe responde, sem constrangimento:
— “Ainda bem, né! Já não aguentava mais eles em casa!”
Em outra reportagem, uma jornalista pergunta a uma estudante do 8º ano:
— “E aí, o que você mais gosta nesse retorno às aulas?”
— “Ah! Rever os amigos, brincar, ficar de boa!”
Ao final, a âncora do jornal comenta sorridente:
— “É mesmo, né! A escola traz de volta a rotina familiar; as mães podem trabalhar tranquilas enquanto as crianças retomam aos braços do cuidado da escola!”
Amigo leitor, a arte de aborrecer é dizer tudo.
E eu me pergunto: quando uma mãe diz “já não aguentava mais eles em casa”, esses filhos são dela ou da escola?
Para o aluno, a finalidade da escola é socializar com os pares? A escola é um mero parque de diversão?
E a âncora — formadora de opinião em nível nacional — sela a percepção de que a escola, enquanto instituição de ensino, serve apenas para cuidar.

Com a palavra Vossa excelência a LEI
Vamos lembrar algumas coisas importantes.
A Constituição Federal, em seu artigo 205, afirma que a educação visa ao pleno desenvolvimento da pessoa e ao preparo para o exercício da cidadania.
A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) é ainda mais clara ao cravar a necessidade de assegurar formação comum e possibilitar estudos posteriores.
O Currículo do Estado de São Paulo operacionaliza essa visão ao apontar o desenvolvimento de competências cognitivas, sociais, emocionais e éticas, além da capacidade de participação crítica na sociedade.
Todas essas premissas dialogam diretamente com o Relatório Jacques Delors (1996), da UNESCO — do qual o Brasil é signatário — que estabelece os quatro pilares da educação: aprender a ser, fazer, conviver e conhecer.
Não se trata de formar gênios ou cientistas excepcionais em massa, mas de algo que, ao que parece, deveria ser consenso social: formar pessoas capazes de sustentar a própria vida com consciência, cultura e responsabilidade.
Mas é isso que percebemos, caro leitor?
A gestão escolar: “Fiz que fui e num fui e acabei ficando”
Vamos lá.
A escola retorna sem nunca ter parado. Tudo não passa de um reset simbólico.
Enquanto nossos alecrins dourados permanecem sob tutela forçada das famílias durante as férias, diretores, gestores e equipes administrativas seguem no modo sobrevivência:
mandam pintar a escola, trocam vasos sanitários, ajeitam a cozinha, organizam a merenda, executam pedidos de transferência, aposentadorias de professores, saldos de aula, mudanças de bloco, modalidades e períodos, fechamento e abertura de salas, contratos de novos docentes, resoluções da SEDUC…
Quer que eu continue?
Não precisa. Você já entendeu.
A gestão escolar não começa o ano letivo planejando o futuro — começa apagando incêndios herdados do passado.

O professor: férias que não descansam
Quanto ao professor — que muitos julgam estar “em férias” apenas por não estar com alunos —, o início do ano é marcado pela angústia do sistema de atribuição de aulas.
Logo no primeiro dia útil após o feriado de fim de ano, começam a fervilhar as rádios-peão:
grupos de WhatsApp discutindo datas, vagas disponíveis, mudanças de escola, contratos vencidos, unidades que se tornaram de Ensino Integral.
Alguns passam a frequentar a Unidade Regional de Ensino em busca de informações concretas. Por volta do dia 15 de janeiro, iniciam-se as atribuições, geralmente presenciais. Em 2026, as regras mudaram de forma tão profunda que provocaram distorções, no mínimo, curiosas:
— “Tenho 32 anos de educação e uma menina com poucos anos pegou aula na minha frente! Até agora não entendi!”
Não, não foi erro de sistema.
Foram as novas regras mesmo, que passaram a privilegiar professores recém-ingressos em detrimento dos mais antigos.
O resultado?
Estresse generalizado entre novos e veteranos, justamente num período que deveria servir para recarregar energias para receber os alunos.
Ou será que o nome correto seria recarregar angústias?

Os alunos: esperança no atalho digital
E os alunos?
Esses visitam mais vezes suas geladeiras mágicas e, colados aos celulares, sonham presságios de um futuro abastado que cairá do céu — como aconteceu com seus ídolos esportistas ou musicais.
A internet vira fonte de renda; o conhecimento, um estorvo no caminho.
Quando não estão na escola, aprofundam-se ainda mais em seus interesses digitais. No intervalo entre um lanche feito pela avó — substituta da escola nas férias — e a tela do celular, consolidam sonhos longe dos livros e dos museus.
“Amam o luxo, têm maus modos, desprezam a autoridade, não respeitam os mais velhos e passam o tempo tagarelando.”
Ao retornarem à escola, passam a enxergá-la como espaço de socialização e diversão, não como lugar de educação ou enriquecimento intelectual.
— “Professor, o senhor viu a Jocélia? Tá ganhando 10 mil reais por mês postando vídeo de chupetas! Nem vai mais vir pra escola.”
A aluna tem 13 anos.
Como será aos 25?
E mais: quantas “Jocélias” dão certo — e quantas dão errado?
Perguntei a outro ex-aluno que também dizia ganhar bem na internet:
— “Você está pronto para o próximo nível?”
Hoje ele ganha 10 mil por mês. E amanhã?
O que fará com esse dinheiro sem o conhecimento necessário para fazê-lo multiplicar?
Comprará um carro de luxo, uma casa em condomínio fechado, promoverá churrascos memoráveis em um looping de festas nababescas?
Aprenderá inglês, cantonês ou francês para conhecer o mundo?
Tornar-se-á um cidadão global?
Será financeiramente educado?
Entenderá suas conquistas como sementes ou apenas como troféus?
Estará, de fato, preparado para o próximo nível?
O fechamento que não é celebração
Querido leitor, parece-me que o início das aulas deixou de ser celebração de avanço educacional — do 1º para o 2º ano, do 5º para o 6º, do 9º para o ensino médio, ou do fim do ensino médio para a graduação.
O que temos é apenas a volta dos que não foram, a próxima temporada de um seriado que poderíamos chamar, sem exagero, de:
“Everybody Hates School.”

