Ex-presidiário encontra um amigo no lixo
Foram sete anos vendo o sol nascer por trás das grades.
Sete anos em que o mundo continuou do lado de fora — e eu, preso não só no corpo, mas dentro da culpa.
Quando saí, ninguém me esperava no portão.
Nem família, nem amigos.
Só o vento, seco e quente, cortando a cara como quem lembrava: “Aqui fora também é difícil.”
Caminhei sem destino, até encontrar um terreno baldio.
Ali, entre latas e mato alto, vi um cachorro.
Preto, orelhas pontudas, ferida na pata e um olhar desconfiado, igual ao meu.
Ficamos nos olhando por um tempo, dois sobreviventes tentando medir perigo.
Eu dei um pedaço do pão que tinha no bolso.
Ele cheirou, comeu e ficou.

No outro dia, voltei.
No outro também.
Cada vez chegava mais perto.
Até o dia em que, sem perceber, ele encostou o focinho na minha mão.
Ali nasceu um tipo de perdão que nenhum juiz pode dar.
Levei comigo.
Dei o nome de Preto, simples como eu.
Achamos um quarto pra alugar, pequeno, mas nosso.
Ele dormia na beira da cama, e quando eu acordava assustado com os sonhos, ele colocava a pata no meu peito.
Como quem dizia: “Calma. Já passou.”
Com o tempo, arrumei um trabalho numa oficina.
O patrão dizia que confiava mais no Preto do que em mim, e talvez tivesse razão — o bicho me ensinou tudo sobre lealdade.
Onde eu ia, ele ia.
Esperava no portão da oficina, debaixo do sol, com o olhar sereno de quem sabe esperar.
Às vezes, quando passo em frente ao antigo presídio, sinto o peso do passado.
Mas olho pro lado, vejo o Preto trotando com a língua pra fora, e lembro: liberdade também é ter pra onde voltar.
Hoje, a gente vive simples.
Trabalho, comida dividida, sono tranquilo.
E toda vez que o sol nasce e bate na janela, eu penso que o Preto não foi só um cachorro que eu salvei.
Foi ele que me ensinou a não desistir de ser gente.
Fonte: Facebook – Mundo Animal

