Lealdade animal
Eles foram encontrados atrás de um contentor.
Tremiam de frio. De fome. De medo.
Mas estavam colados, derretidos num abraço que dispensava palavras.
O maior envolvia o menor com o próprio corpo, como se tivesse entendido, instintivamente, uma verdade simples e brutal: ou resistiam juntos, ou não resistiriam.

O veterinário confirmou depois o que os olhos já gritavam: foi o vínculo entre eles que os manteve vivos.
Hoje, partilham uma cama quente.
Já não precisam lutar contra o mundo.
Já não precisam se proteger da noite.
E, ainda assim, dormem encostados.
Sempre.
Não por medo — mas por memória.
Porque quem sobreviveu junto à fome e ao abandono aprende algo que não se desaprende: o corpo do outro é abrigo.
O calor do outro é promessa.
Eles foram abandonados por quem devia cuidar.
Mas nunca se abandonaram um ao outro.
O que existe entre eles não se ensina, não se treina, não se compra.
Nasce na dor.
Cresce no silêncio.
E recebe um nome raro: lealdade.
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