Educação

“Rituais Docentes” — O Silêncio entre Dezembros e Fevereiros

Por João de Loyola
Na Reunião semanal de ATPC daquele meio de novembro a coordenadora dispara “Pessoal! A confraternização será 180 reais pra cada um se for fazer no buffet da Joana”, “Ahh Não! Tá muito caro! Porque não fazemos aqui mesmo, cada um traz um pratinho e uma bebidinha, fica mais barato isso ai!”, “Pelo amor de Deus gente aqui na escola de novo não!” disse outro professor e daí seguiu-se as discussões até que se resolveu ir no bar do Daniel ali perto mesmo e fazer lá a confraternização, apenas 15 dos 65 professores compareceram.


Nos dias de fechamento das notas e das plataformas digitais, final de novembro início de dezembro, os alunos frequentes eram apenas os que achavam que iam “repetir de ano” (isso legalmente não existe mais meu caro leitor). Assim, como em uma pequena vingança, os professores mais tradicionais aplicavam suas últimas atividades enquanto a gestão lutava para manter as plataformas em altos níveis mesmo sem alunos. Sim dezembro chega como um exorcismo. O ar muda. O calor é físico e a exaustão é espiritual. o ritual do “tá acabando!” já está instalado desde novembro. Últimas provas remarcadas, súplicas nos corredores por mais um trabalho, e a velha ladainha ressuscitada no Saresp:


— “Gente, atenção! As aulas vão até dia 12/12, revisem os diários não esqueçam do quinto conceito!”.


— “Mas o Gilberlânio não fez nada o ano todo… como eu dou nota pra ele?”.
— “Você quer ter razão ou quer ser feliz? Manda ele embora, pô! Deixa ser aprovado pelo conselho!”
E na última reunião de pais — aquela única do ano que a mãe comparece para ver se dá pra ir viajar com o filho pra casa da avó — vem o golpe final:
— “Professora, ele passou?”.
— “Passou… apesar de passar o ano inteiro sem trazer material, não fazer nada além de conversar em sala de aula e só perturbando”.
E então a escola exala. Não de alívio, mas de torpor.
Para o aluno, férias significam descanso das regras e dos professores, suas “babás especializadas”. Para o professor, significam ausência dos seus algozes — os próprios alunos. Mas como chegamos a esse ponto?
E por que o silêncio de dezembro a fevereiro não é sagrado, mas anestésico?


Porque é natal e ano novo de renovação cristã? Ou a escola virou campo de exaustão. A verdade nua é que não há forças sobrando para planejar, inovar sequer sonhar e quem sabe ensinar. Há apenas a necessidade de desligar. Recarregar para suportar o velho mais uma vez. O futuro não é gestado, ele é apenas adiado para o próximo ano letivo. Para muitos professores o ano tem 200 dias letivos de puro sacrifício, 104 dias de finais de semana um oásis no deserto semanal, 12 feriados, 15 dias de recesso em junho e 15 em janeiro, 24 dias de formação e correção de prova. Fez as contas? E o salário? Sabe-se lá Deus!


Os jornais, nossos governantes e educadores de gabinete dirão que a educação precisa de inovação, tecnologias (plataformas digitais), metodologias ativas, novos currículos, professores capacitados.
Mas a alma do professor grita: “Só me deixem dormir… só até fevereiro… Mas me acorde em janeiro para atribuição de aulas.”


E o que deveria ser um tempo de renovação, vira um período de fuga. Ninguém está pensando em 2026. Ninguém está pensando, na verdade latente e inexorável.
A escola brasileira, com raras e valiosas exceções, encerra o ano como um hospital de guerra: sobreviveu. A contagem de corpos metafóricos —, abandonos, violências veladas, descaso social, apatia docente, gestão massacrada pelas cobranças de resultados — é feita em silêncio. E entre uma fatia de panetone e um diário encerrado, os educadores vão para casa esgotados, desidratados de sonhos.
“Povo que não conhece sua história tem tendência a repeti-la.”


Assim a educação brasileira nem sequer descansa para refletir sobre o que viveu. Ela apenas repete.
E o pior: o que se repete não é o que deu certo, mas o que deu para fazer.
Em algum momento, ser professor passou de missão a sobrevivência, e de sobrevivência a expediente.
Então voltemos a nossa introdução, uma conversa comum em todas as escolas que simboliza algumas coisas como o cansaço, o poder aquisitivo, o meio comum de convivência desta classe de brasileiros indispensáveis para sociedade. Veja! Um docente não tem dinheiro suficiente para ir a um lugar mais adequado para comemorar suas vitorias( quais não é mesmo?), por vezes prefere ficar no ambiente escolar mesmo. Se fosse nos tempos da escravidão seria como se a festa de final de ano fosse comemorada na senzala em vez de ser na casa grande, no terreiro ou na igreja. Pense comigo, como será a capacidade financeira docente para atualizar seus estudos? Não os que as secretarias mandam eles fazerem obrigatoriamente mas o que ele gostaria de estudar.

No final do ano para os docentes os louros são apenas usados no caldo de feijão no bar do Daniel, o único lugar que nos aceita pelo que recebemos ao final do ano.
Dezembro não é apenas o fim do ano letivo. É o marco de um sistema que ainda não aprendeu a aprender.
Fevereiro chega, os alunos voltam, os cartazes coloridos voltam, o planejamento é feito, as formações se repetem.


Mas no fundo, todos sabem: ainda estamos esperando por uma educação que tenha coragem de deixar o professor dormir, sim — mas para acordar com a missão de sonhar junto.
Até lá, seguimos. Como dizia minha mãe: “Levanta Sacode a poeira e dá a volta por cima!” ao menos é o que desejamos.

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