História Real

Meu dever é cuidar da Lola

Quando minha mãe se foi, eu realmente pensei — talvez fosse melhor sacrificar a cachorra dela?

Lola estava velha, quase não enxergava e tinha dificuldade para se locomover. Eu achava que isso seria mais humano. Mas tudo mudou quando descobri a verdade…

— E então, Lola, — falei suavemente, sentando-me na beira da cama. A pequena dachshund não se mexeu — estava deitada, virando o rosto para a parede, encostando-se no travesseiro que ainda guardava o calor da minha mãe. Apenas mexeu ligeiramente o rabo — o que significava que tinha me ouvido.

Três dias se passaram desde o funeral. Eu fui até lá para arrumar as coisas da minha mãe: roupas, documentos, medicamentos… Tudo o que resta de uma pessoa. E, claro, restava a Lola. Ela já estava com catorze anos. Eu, sinceramente, não entendia por que a mamãe ainda a mantinha. A cachorra quase não ouvia, muitas vezes se enroscava em nossos pés, urinava. Eu já tinha dito algumas vezes: «Será que não seria melhor parar de atormentar o animal?» Até o veterinário insinuava: «Nessa idade, isso já não é vida…»

Mas minha mãe sempre respondia: «Eu não consigo. Isso seria traição».

Eu achava que era apenas pena. Minha mãe sempre foi muito gentil — alimentava pombos, ajudava gatos de rua. Agora eu estava sentada pensando no que fazer com a Lola. Levar? Moro no quinto andar sem elevador, num apartamento minúsculo, trabalho o dia inteiro e tenho um gato nervoso. E por que ela deveria sofrer?

Ao abrir a gaveta da mesa de cabeceira, encontrei fotos antigas. Amarradas com um elástico. Mamãe jovem, eu — apenas uma menina, e numa das fotos o papai segurava um filhote com orelhas compridas. No verso estava escrito: «Lola, 2011». Então foi ele quem a trouxe?

As fotos seguintes — papai ensinando Lola comandos, assistindo televisão juntos, passeando no jardim. De repente me lembrei — onde ele ia, ela também ia. Em viagens, para a casa de campo, até ao mercado. E quando ele adoeceu, Lola quase não saía de perto de sua cama.

Após sua morte, minha mãe ficou sozinha. E eu — raramente a visitava. Sempre existiam tarefas mais urgentes: divórcio, crises no trabalho… Eu pensei que ela daria conta.

No dia seguinte, descendo para comprar ração, encontrei a vizinha, Sara, na porta do prédio. Nós começamos a conversar, e ela perguntou:

— O que você vai fazer com a Lola?

Eu dei de ombros. E ela, de repente, disse:

— Sabe, depois da morte do Adam, sua mãe praticamente desapareceu. Durante meses ela não saiu do apartamento uma só vez. Eu levava mantimentos — ela pegava sem dizer uma palavra, sem abrir a porta. E depois começou a conversar com alguém. Eu pensei que fosse a televisão. Mas era com a Lola. Ela lhe contava sobre o Adam. Como ele amava café pela manhã, como se irritava com o boletim do tempo. E a Lola ouvia.

— Apenas por solidão… — tentei me justificar.

— Não. Não era apenas tristeza. Ela dizia: «Apenas a Lola lembra dele como ele realmente era. Não doente. Vivo. Como ele era quando éramos felizes».

Um calafrio percorreu minha espinha. Quando subi, olhei para Lola de forma diferente. Eu me aproximei, sentei ao lado dela, acariciei sua cabeça:

— Você realmente se lembra do papai?

Lola se levantou, se aproximou e colocou a cabeça nos meus joelhos. Do jeito que fazia com ele. E naquele momento eu entendi tudo. Mamãe manteve Lola não por pena. Ela era uma ponte viva entre o passado e o presente. Um lembrete daquela vida em que ele estava presente.

— Desculpa, Lola, — eu sussurrei. — Eu pensei que você fosse apenas uma cachorrinha velha…

Eu a peguei nos braços, sentei na cadeira da mamãe e comecei a contar:

— Lembra quando ele te dava salsichas escondido? E mamãe reclamava. Lembra de como ele te chamava de sua co-piloto no carro?

À palavra «co-piloto», Lola mexeu a orelha. E quando lembrei dos pantufas vermelhas dele — ela choramingou baixinho. Ela se lembrava.

À noite, ela dormiu ao meu lado. E pela manhã, eu sabia — eu a levaria comigo. Não importa o quão difícil, o quão inconveniente. Mas agora eu sabia: ela não é apenas uma cachorra. Ela é parte da nossa família.

Eu reuni suas tigelas, sua caminha, brinquedos. Antes de sair, olhei ao redor do quarto mais uma vez. Em um quarto cheirava ao perfume da mamãe. No outro — ao couro e tabaco da jaqueta do papai. Tudo o que restava.

— Vamos, Lola. Agora você está comigo.

Ela foi até a porta, olhou para trás. Eu prometi:

— Lá será bom. Eu prometo.

No carro, ela estava sentada no meu colo e olhando pela janela. As ruas familiares passavam rapidamente. E quando passamos pelo parque, ela fixou o olhar — como se estivesse se lembrando.

Eu fiz um cantinho para ela perto do aquecedor. O gato reclamava, mas depois se acostumou. Agora eles ficam deitados lado a lado.

Todas as noites eu conto histórias sobre o papai para a Lola. Sobre como ele era — divertido, teimoso, verdadeiro. E ela coloca a pata na minha mão. E eu sei — ela lembra.

Recentemente, mostrei uma foto para ela. Ela olhou para ela, cheirou com o nariz — e choramingou baixinho.

— Você reconhece, não?

Às vezes os vizinhos perguntam — por que você tem um cachorro velho? E eu sorrio:

— Ela carrega a memória dentro de si. Enquanto ela está aqui — o papai também está.

Eu só agora entendo: a mamãe amava tanto o papai que não conseguiu deixar ir nem mesmo a cachorravque se lembrava dele.

Agora é o meu dever. Cuidar de Lola. E do papai nos olhos dela. Enquanto a memória viver — nós também viveremos.

— Obrigada, mamãe, — às vezes eu sussurro. — Obrigada por tê-la mantido. Agora ela é minha.

E Lola levanta a cabeça, olha para o nada e uiva suavemente. Como se dissesse: «Eu lembro. Nós lembramos».

Ontem, o veterinário disse que a Lola tem pouco tempo. Talvez um mês. Talvez um pouco mais.

Mas quando ela não estiver mais aqui — eu ainda vou lembrar. Dela, do papai. Do amor deles. E daquela linha tênue que nos uniu novamente.

Fonte: Facebook

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