Educação Paulista

Com a Palavra, Vossa Excelência: O Aluno


Por João de Loyola
Meu amigo, minha amiga, desta vez vamos falar um pouco mais dos alunos de nossas escolas, Isto porque alimentamos um certo desespero contido e curtido na garganta de quem está no front da sala de aula. Se de um lado tem o docente, o “juiz” malfadado, de outro temos o jogador, aquele que todos esperam o grande espetáculo da sala de aula, o que reúne todas as esperanças da sociedade, a sua excelência: o aluno.


Contrário do que muitos pregam, a palavra “Aluno” vem do latim “Alumnus” que significa “Discípulo”, “pupilo” ou “Filho adotivo” (Houaiss, 2023). O verbo relacionado é alere, que quer dizer “nutrir, alimentar, fazer crescer”. Desta maneira, alumnus é “aquele que é alimentado (intelectualmente e moralmente devo dizer)”. No português medieval, aluno já significava discípulo, estudante, assim, o sentido de “aquele que se nutre de saber” permaneceu, ligado ao ato de alimentar o espírito e a mente com o conhecimento oferecido pelo mestre.


Porque estou dizendo isso! É que na etimologia da palavra “aluno” há uma coincidência incrível em que o “alumnus” de hoje tem no sentido literal dado pela etimologia, “aquele que é alimentado”. Até o final deste artigo você vai entender.
Sua Excelência, o Aluno. O palco é uma escola pública de uma das periferias da cidade de São Paulo. O cenário? Uma sala com cerca de quarenta carteiras, onze celulares ligados, nove alunos tentando fazer algo entre conversas e músicas, e o professor como figurante de luxo tentando ser o legítimo “juiz” da situação.

“Entram sorrindo. Alimentam-se da escola.Resta saber: será da merenda ou do conhecimento?”


A escola, sob o olhar do aluno, não é templo do saber, para ele, é um ponto de socialização com Wi-Fi e merenda, onde o aprendizado é uma consequência opcional. Entre uma notificação no TikTok e a sirene do intervalo, a vida escolar segue seu próprio roteiro. As regras existem, mas são como aquelas placas de trânsito que ninguém respeita porque a rua já está dominada: cada um faz o que quer, e a buzina que sobra é a voz do professor.


De manhã à noite, o celular é o centro do ecossistema escolar. Estudos do Cetic/TIC Educação (2023) mostram que quase 60% do tempo escolar dos adolescentes conectados é gasto em apps sociais — TikTok, Instagram, WhatsApp.
E aqui, amigo leitor, há uma contradição cruel: o mesmo aparelho que poderia ser ponte para conhecimento é usado como trincheira contra a escola. É dele que vêm as risadas na hora da explicação, os fones de ouvido disfarçados, os vídeos na hora da lição.


Na percepção do aluno, se o professor fala e ninguém filma, será que aconteceu mesmo? Se não postar, não existe. A escola real compete com a escola digital, e está perdendo feio.
Pois então vejamos! Cinco minutos antes do sinal do intervalo, os “alunos” já se alinham na porta. O professor pede para sentar; eles sorriem galhofeiros. É um balé coreografado do desrespeito cotidiano. A merenda não é só comida: é ritual social, vitrine de popularidade, e às vezes a única refeição decente do dia. Entre uma colherada e outra, estratégias são traçadas: Qual sala invadir na próxima aula? Qual banheiro vai virar “ninho de intervalo”, longe dos olhares dos adultos? Qual história será contada no WhatsApp sobre a “briga que será lá fora”. O aluno de hoje carrega em si o dilema da maturidade invertida.


No corpo, já é quase adulto: 16, 17 anos, boné virado, autonomia nas ruas. Em uma certa escola, computa-se 10 meninas grávidas de 300 alunos que estão entre o 8o anos e 3o do ensino médio, uma já está no segundo filho, a idade? 16 anos!
No comportamento escolar, é como uma criança da educação infantil: quer brincar, testar limites, correr entre salas, pedir para ir ao banheiro só para sentir o gosto da liberdade, comer a deliciosa merenda de forma pouco educada.”Mas em casa ele não é assim!” falou a mãe espantada ao saber da traquinagem do pimpolho.


Estudos de Psicologia do Desenvolvimento (Erikson) e de Sociologia da Educação confirmam: O adolescente em vulnerabilidade tende a prolongar comportamentos lúdicos ou de oposição em ambientes institucionais fracos. Só “vira a chave” quando assume responsabilidades adultas forçadas, como paternidade precoce ou ingresso no trabalho informal. “Então professor! Agora que vou ser pai tenho de ser sujeito homem, já arrumei até um trampo ali no lava rápido!” disse o aluno do 2o ano do ensino médio com 16 anos.


Na visão social do aluno periférico, a escola é extensão da infância: O professor é um cuidador ou animador de festa, estes os melhores ranqueados nas avaliações estaduais .”Faz o seu serviço aí fio!” disse para o professor quando este lhe pediu para guardar o celular”. O coordenador é uma barreira de trânsito que tenta organizar o caos. “Oxi! Vem fazer eu entrar na sala!” provocou o aluno acintoso a sua coordenadora. E o conteúdo curricular é pano de fundo, quando não ruído incômodo. “O Sr, está falando aí que respondi errado, mas foi no chat gpt que eu pesquisei”.


Ele não chega esperando conhecimento, mas acolhimento e liberdade.
E quando confrontado, reage como reagiria com qualquer adulto que “invade seu espaço”: com birra, ironia ou desafio. “Ó você no erro véia! Nem tá sabendo dos procedimento! Eu vou levar carregador pra minha amiga e pronto maluco!” Vociferou a menina de 13 anos a sua professora saindo da sala sem a devida permissão.
No dia a dia, os sinais são claros: Saídas constantes para banheiro como fuga simbólica. Engajamento cognitivo real estimado em 25% do potencial, segundo pesquisas em neuroeducação e observações em sala. Ele quer se sentir protagonista ante seus amigos, questão de necessidade que a psicologia explica.


Entrevistando alguns alunos perguntamos o que eles acham da escola, por que vem todos os dias e o que ela precisa para melhorar: um deles de 16 anos disse “Não sei! Venho porque sou obrigado, não precisa fazer nada, está bom assim!” Esta declaração veio no dia após o pai deste aluno ter conversado com todos os seus professores sobre sua conduta escolar indevida. Outra disse, “Lugar de aprender e evoluir, mas aprendo melhor quando estudo em casa, não gosto de me expor aqui na escola, tenho medo dos outros alunos tirarem uma da minha cara!”. “Aqui! (a escola) não é ruim, são só alguns alunos que vêm aqui para socializar, mostrar poder, experimentar coisas novas (se referindo ao uso de drogas)” disse um terceiro meio desconsolado pelo fato de não perceber uma aprendizagem de qualidade.
Se pudesse falar com honestidade, talvez os “alumnus” dissessem algo assim (baseados em fatos reais):

“Conectados pela mente, imersos na ciência.No holodeck da escola do futuro, o saber deixa de ser peso e passa a ser presença com engajamento”


“Ô, Malucão… Nem vem querer pagar de loki pra cima de mim, não! Aqui a parada é só brisa, tá ligado? Tem pra ninguém aqui não! Marca não, tio, que se piá na reta é só aplicar jão! Carrego onda de ninguém não véio! Aqui é milicota! oxi! Negócio de escola é só porque a véia embassa em cima por causa da bolsa família lá mano, senão já tinha era é rapado fora. Enquanto isso, só tô de boas no rolê meu camarada e se sobrar uma novinha nois passa logo uns dois! Fica panguando pra tu vê véio! É nois fita, vários malucos novamente!”
E você, caro leitor, entendeu o recado?
Aqui chegamos ao ponto que talvez doa, mas precisa ser dito: lembra do início do artigo sobre o sentido da palavra “aluno”? Pois bem! o “alumnus” moderno tomou ao pé da letra sua etimologia.
Ele se tornou um comensal da escola. Senta-se à mesa do sistema educacional apenas para ser servido – de merenda, de atenção, de atividades prontas e notas generosas. Há um ser que age assim na natureza, que a falta da aula de Biologia não o deixa perceber, que o comportamento assemelha-se a um parasita social. Nutre-se do que a escola oferece, mas pouco metaboliza, pouco transforma em saber.
Alimenta o corpo, o ego, mas a mente e a alma sempre em jejum.
Em muitos casos, comporta-se como um filho adotivo rebelde: cobra, exige, consome, mas se esquiva da responsabilidade de crescer, e para que crescer se “Quem tem um burro para carregar vai andar a pé porquê”, e qual seria o nome desse burro mesmo?
Talvez por isso, em tantas salas de aulas, periféricas ou não, tenhamos barrigas saciadas e espíritos vazios, enquanto os professores tentam, dia após dia, transformar comida em conhecimento – e nem sempre conseguem.”


É o seguinte: no tabuleiro da educação, cada peça joga por si. O professor cumpre tabela, o gestor corre atrás de metas, o aluno joga seu próprio campeonato. Enquanto isso, a aprendizagem real fica à margem, e o futuro se constrói com lacunas.
Mas que aqui fique claro, meu caro leitor: nem tudo é cinza no nosso mapa escolar. Há escolas que, em meio a tantas mazelas, brilham como verdadeiros bastiões de resistência social. Sim! São ilhas de disciplina, engajamento e propósito, onde professores e alunos escrevem uma história de dignidade todos os dias, mesmo sem holofotes.
Entre becos apertados e ruas marcadas pela desigualdade, essas escolas se erguem como muralhas silenciosas contra o caos, provando que educação pública de qualidade não é mito — porém, apenas exceção.
Seus personagens, suas práticas e os resultados que conseguem, contra todas as probabilidades, merecem um artigo à parte. E ele virá.”
Com a palavra, vossa excelência, o aluno.
Ele já deu o recado com suas ações. Cabe à escola decidir se vai continuar perdendo de W.O. “panguando” ou se finalmente vai entrar no jogo.

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